Juçara Marçal está em todos os lugares.
A cantora vai de Sesc em Sesc na capital paulistana. Há quem a tenha visto recentemente no Instituto Moreira Salles, cantando em um espetáculo inspirado na cineasta Agnès Varda. Outros, que pararam por acaso diante de um palco montado no vão do Masp, a viram cantando Itamar Assumpção. Alguns sortudos viram alguma apresentação recente do Metá Metá, banda que Marçal integra com Kiko Dinucci e Thiago França, na Casa de Francisca.
“É um retrato de quem rala para caramba”, diz a artista.
A resposta soa coerente para alguém que passou a maior parte da vida dividida entre a música e a sala de aula. Antes de se tornar referência da cena independente de São Paulo, Marçal foi professora universitária. Formada em letras, com mestrado em literatura brasileira, ela viveu durante décadas o cotidiano de quem conciliava ensaios, shows e correções de trabalhos.
Nascida em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e criada na casa da mãe, em São Sebastião, no litoral paulista, a artista chegou a São Paulo no início dos anos 1980 para fazer vestibular, buscando exatamente o contrário do que a música prometia —uma profissão estável. Primeiro tentou matemática. Depois, jornalismo e, por fim, letras.
A música seguia em paralelo, mas não como ocupação principal. Foi nesse período que Marçal integrou o Vésper Vocal, grupo feminino de música a capela dedicado à MPB, e, mais tarde, A Barca, coletivo que pesquisa e recria arranjos e composições com base em gêneros tradicionais brasileiros.
A guinada aconteceu apenas em 2015. Naquele momento, o Metá Metá já havia se consolidado como um grupo influente na música brasileira do século 21. As turnês internacionais se multiplicavam e a rotina acadêmica passou a parecer incompatível com a vida artística. “Chegou uma hora em que não fazia sentido continuar.”
O curioso é que a decisão de abandonar a estabilidade não produziu uma especialização para a artista. Ao contrário. Enquanto muitos artistas passam a carreira aperfeiçoando uma assinatura reconhecível, Marçal parece movida pelo impulso oposto.
Sua trajetória recente é uma sucessão de desvios. Ela grava discos experimentais, participa de espetáculos teatrais, canta repertórios de artistas franceses, apresenta projetos autorais, empresta a voz para trilhas sonoras e continua se encontrando com os parceiros do Metá Metá.
Aos 64 anos, os projetos de sua carreira surgem a partir de encontros, interesses momentâneos e desafios inesperados. Foi assim quando se aproximou da obra da cantora francesa Brigitte Fontaine, quando aceitou criar um espetáculo inspirado em Agnès Varda ou quando mergulhou no universo teatral de “Gota d’Água Preta“.
A palavra “movimento” surge diversas vezes durante a conversa. Em determinado momento, ela lembra de uma entrevista recente da deputada federal Luiza Erundina. Alguém havia perguntado à ex-prefeita de São Paulo, hoje aos 91, sobre envelhecimento. “A vida é movimento.” Marçal repete a frase como quem encontra nela uma espécie de síntese para a própria trajetória.
“O tempo é o tempo presente, não tem isso de primeira, segunda, terceira idade, é o tempo presente”, parafraseia Erundina. “Achei tão lindo.”
Seu novo álbum, “Dessemelhantes”, funciona quase como uma tradução dessa lógica. Gravado ao lado da pianista Thaís Nicodemo, o disco faz parte de uma das formações mais tradicionais da música popular brasileira —voz e piano. À primeira vista, parece um projeto familiar, daqueles que ocupam uma longa linhagem de intérpretes da MPB.
Mas a familiaridade dura pouco. O piano preparado de Nicodemo —técnica em que objetos (como parafusos, moedas e, no caso de Nicodemo, latinhas) são colocados entre as cordas, martelos ou abafadores do instrumento para alterar o som do piano— desloca as canções para territórios estranhos. A ideia surgiu justamente da vontade de evitar o caminho mais óbvio. “Se fosse só um disco de voz e piano, talvez não precisasse existir”, diz.
O disco será apresentado pela primeira vez pela dupla neste sábado e domingo (20 e 21), no teatro do Sesc Pompeia.
Ao longo dos anos, Marçal transformou a recusa da repetição em método. O celebrado “Encarnado“, em que ela se apresenta como uma intérprete radical, não se parece com “Delta Estácio Blues“, que embaralha samba, eletrônica e cria uma música um tanto experimental. Nenhum dos dois se parece com “Dessemelhantes”. E ela faz questão de que continue assim. “Eu gosto de achar outras possibilidades.”
Apesar do tom subversivo, a cantora sugere uma ternura digna de uma professora de português.
Esse impulso talvez tenha relação com outro aspecto recorrente de sua biografia. Beletrista por natureza e diploma, a cantora afirma que sempre foi movida pela literatura e pela capacidade da linguagem de produzir sentidos e emoções. A canção, para ela, aparece justamente como o lugar onde essas paixões se encontram. “O que sempre me encantou foi a palavra.”
Marçal tem pouca paciência para narrativas de consagração. Ela inicialmente pergunta se tem “perfil para ser perfilada” e tenta diminuir sua influência na música independente feita pela nova geração. Prefere falar dos encontros que moldaram sua trajetória.
Dinucci, França, Nicodemo, Romulo Fróes e tantos outros músicos que ajudaram a construir uma cena fértil em São Paulo nas últimas duas décadas. Cena da qual ela foi personagem central.
No entanto, quando fala da capital paulista, evita tanto o entusiasmo cego quanto o ressentimento. Reconhece a dureza da cidade, a solidão e o ritmo cansativo. Ao mesmo tempo, atribui a São Paulo a rede de amizades, parcerias e estímulos que tornaram possível sua trajetória. “São Paulo produz uma efervescência que te instiga.”
Talvez seja por isso que Juçara Marçal esteja sempre em algum lugar. Parar, afinal, nunca pareceu uma opção.













