Poucos memes foram tão comentados em 2022 quanto o do “patriota do caminhão“.
Em novembro daquele ano, manifestantes bolsonaristas mantinham centenas de bloqueios nas estradas como protesto contra a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial.
O episódio insólito aconteceu durante uma mobilização em Caruaru, em Pernambuco, em que um comerciante subiu na frente de um caminhão para impedir que o veículo deixasse o local. O motorista, no entanto, seguiu adiante, percorrendo alguns quilômetros da BR-232 com o homem de camiseta e boné amarelos pendurado no para-brisa.
O ator e diretor paulistano Caco Ciocler foi um dos que se divertiram com a cena e as montagens feitas a partir dela, até que parou de rir e passou a ver naquela situação sinais de uma tragédia da sociedade brasileira. Começava a nascer “Eu Não te Ouço”, filme que acaba de entrar em cartaz nos cinemas do país.
“Me deu vontade de pegar carona nesse meme para entrevistar o cara pendurado e o caminhoneiro, para entender o que estava acontecendo”, ele afirma.
A ideia dialogava com os dois filmes anteriores dirigidos por Ciocler. No documentário “Partida”, de 2019, ele acompanhou um grupo liderado pela atriz Georgette Fadel, que viajou de ônibus para o Uruguai para encontrar José Mujica, ex-presidente do país vizinho.
Em “O Melhor Lugar do Mundo É Agora”, lançado dois anos depois, o cineasta embaralhou os limites entre realidade e ficção para discutir o alcance da arte em meio ao isolamento da pandemia e ao extremismo de caráter ideológico.
“Eu Não te Ouço” é o arremate dessa trilogia política. Esse “falso documentário sobre alguém que entrou em um meme”, como Ciocler descreve, radicaliza essa ambiguidade que envolve o real e o imaginário, presente nos dois longas anteriores, e reflete sobre temas como a violência e a incapacidade de ouvir aquele do qual divergimos.
A partir desse mote inicial, o diretor passou a pensar no vidro da cabine do caminhão como uma representação física dessa impossibilidade de escuta. “A pessoa acha que fala com quem está do outro lado quando, na verdade, conversa com seu próprio reflexo”, afirma.
Foi um longo caminho para articular esse jogo que envolve o caminhoneiro e o homem pendurado, ambos interpretados por Márcio Vito, além do repórter, que não vemos, apenas ouvimos.
Ciocler convidou uma antiga amiga, a atriz Isabel Teixeira, para colaborar no projeto e, então, ela e Vito se dedicaram a um processo chamado pela atriz de “escrita na cena”.
Vito, sozinho, fazia uma sessão de improvisos dos diálogos e enviava esse registro para Teixeira, que avaliava o trabalho e o devolvia com observações. Depois, essa produção em parceria chegava a Ciocler, que fazia novas provocações. Desse vai-e-vem que se estendeu por mais de um ano, resultou um dossiê sobre os dois personagens com mais de 200 páginas, utilizado como base para as filmagens.
“Não acredito em escrita de gabinete, nem para teatro nem para cinema”, diz a atriz, que assina o roteiro com Ciocler e Vito.
Essa preparação minuciosa também contribuiu para afastar os personagens de retratos estereotipados. “Não é o bem e o mal, um lado e outro, isso está muito no cerne da inquietação do Caco como diretor”, comenta Teixeira. “O ser humano é muito mais complexo do que a direita e a esquerda.”
Embora Ciocler se identifique mais com o campo progressista, os diálogos do seu novo filme não poupam nenhum dos lados, muitas vezes avessos a uma escuta atenta de quem pensa de modo diferente.
A densidade dos personagens também se deve à sensibilidade de Márcio Vito, que conquistou o prêmio de melhor ator no Festival do Rio do ano passado.
As filmagens, concentradas em apenas quatro dias dentro de um estúdio, foram uma prova de resistência para Vito. Ele se alternava entre os papeis do caminhoneiro e do homem pendurado em jornadas que se estenderam por até 12 horas. Tanto tempo dentro e fora do caminhão o levou a sentir tonturas em alguns momentos.
O ator diz ter se inspirado em nomes com quem já trabalhou no teatro, como Paulo José e Nelson Xavier, ambos mestres em “composições delicadas”.
Ciocler sabia que tinha uma boa história para contar e um ator à altura dos seus protagonistas, mas, com o passar do tempo, começou a temer que tivesse perdido o timing, afinal o “patriota do caminhão” é um fenômeno de quase quatro anos atrás.
Logo percebeu que a discussão, infelizmente, continuava oportuna. “Todas essas histórias e esses memes vão começar a voltar.”
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