Se, no dia 22 de junho de 1970, alguém tivesse sugerido que o técnico da seleção brasileira devia ser um italiano, julgo que teria havido uma desgraça.
Na véspera, o Brasil tinha vencido a Copa do Mundo, batendo a Itália por 4 a 1. Não tinha sido um mero jogo. Tinha sido um debate filosófico. Frente a frente, estavam duas ideologias antagônicas. De um lado, o apreço pela liberdade individual; do outro, a submissão do indivíduo ao coletivo.
Para uns, o mais importante era a beleza, a ideia de enganar o adversário, o ataque; para outros, era a eficácia, a frieza dos números, a defesa. Bem sei, bem sei. Especialistas profissionais e amadores virão dizer que se trata de um exagero, que também havia uma noção de coletivo no Brasil e uma valorização da criatividade na Itália. Está bem.
Mas creio não estar longe da verdade se disser que, ao longo da história do futebol, há duas grandes escolas filosóficas: a da criatividade deslumbrante vocacionada sobretudo para atacar; a do rigor e da disciplina tática dedicada primeiramente a defender. E as seleções que mais claramente corporizaram essas filosofias foram a brasileira e a italiana.
“Joga bonito” é uma expressão produzida pelo português brasileiro conhecida em todo o mundo; “catenaccio” é uma palavra italiana que gente de todas as nacionalidades usa para se referir a determinada forma de jogar.
Por isso, quando o italiano Carlo Ancelotti foi escolhido para comandar a seleção brasileira, receei que houvesse um tumulto. Como assim, contratar um italiano para orientar brasileiros? O que é que isso quer dizer? É uma capitulação? Uma renúncia? Não seria o equivalente a um partido democrático reconhecer que o melhor era se fosse dirigido por um líder com tendências autoritárias?
No entanto, a nomeação parece ter sido bem recebida. O que só pode significar que o povo brasileiro espera que Ancelotti seja o Immanuel Kant do futebol. Assim como Kant conciliou o empirismo e o racionalismo, Ancelotti será capaz de harmonizar a criatividade e a ordem.
O escrete vai dançar um samba pragmático. Vou precisar de aulas de filosofia para assistir à Copa do Mundo.
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