A preservação audiovisual ronda as telas do cinema, da televisão e dos celulares. A restauração de filmes como “A Hora da Estrela”, lançada em salas de cinema, e novos títulos como “O Agente Secreto”, “Anistia 79” e “Entrevista com Fantasmas” revelam, em suas diferenças formais, a centralidade dos debates em torno de arquivo, memória e imaginação do cinema brasileiro.
Nesse sentido, a preservação não pode mais ser compreendida como uma atividade meramente técnica ou coadjuvante.
O cinema brasileiro foi historicamente atravessado pela centralidade da produção fílmica, tanto em âmbito político quanto de financiamento. Apesar da continuidade na produção audiovisual no Brasil nas últimas décadas, continua vigorando a mentalidade de que só o que importa é a produção do próximo novo filme.
A preservação audiovisual representa, por princípio, o pensamento a longo prazo —a ideia de que uma obra não se destina apenas ao público de hoje, mas também ao de amanhã. Em contraste, a mentalidade imediatista coaduna-se com a falta de atenção com tudo aquilo que não representa o retorno comercial imediato. Isso relegou ao segundo plano dimensões que escapam ao pragmatismo neoliberal. O tempo também é político.
Associado a isso, subsiste o tradicional desprezo pela preservação audiovisual, não assumido publicamente, por parte da elite econômica do audiovisual brasileiro, postura evidenciada nas disputas em torno dos desígnios das políticas públicas.
Entretanto, hoje, mais do que nunca, isso representa uma mentalidade mesquinha, dado o cenário contemporâneo de financiamento do audiovisual brasileiro. Ao longo da existência do Fundo Setorial do Audiovisual, não houve ação ou destinação específica para preservação.
O argumento de que o investimento do fundo precisa ser “retornável” baseia-se numa construção retórica que não corresponde à realidade efetiva do que dá retorno financeiro ou não. Essa visão deve ser problematizada não apenas do ponto de vista estritamente econômico, mas também do ideológico. O que significa retorno no campo da cultura?
Se o investimento público destinado à preservação audiovisual é insuficiente, ele é também excessivamente centralizado. No ano passado, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, recebeu R$ 21 milhões do Ministério da Cultura, enquanto a Sociedade de Amigos da Cinemateca captou outros R$ 19 milhões.
Ao se comparar esses valores com os investimentos públicos ou privados ao redor do país, evidencia-se a inegável concentração institucional dos recursos. A construção de uma política pública democrática exige processos de territorialização de espaços de preservação, capazes de fortalecer arquivos regionais, comunitários e universitários.
A concentração de recursos também se expressa em projetos que reforçam o status quo, desprezando o ainda desconhecido ou o não consagrado. Um filme como “Xica da Silva” já foi restaurado digitalmente duas vezes nos últimos 15 anos —em 2K e, agora, em 4K—, enquanto tantos outros filmes continuam inacessíveis em formato digital ou estão correndo risco de desaparecimento pela deterioração de suas matrizes analógicas.
O objetivo primordial da preservação audiovisual é assegurar a permanente acessibilidade dos documentos audiovisuais em seu grau máximo de integridade. Isso significa garantir não apenas aos cidadãos de hoje, mas também às futuras gerações a possibilidade de conhecer as obras audiovisuais brasileiras.
A preservação deve abarcar a diversidade do nosso audiovisual e não apenas as produções financiadas com recursos públicos federais, contempladas pela atual lei do depósito legal. A preservação audiovisual precisa fazer parte do pacto federativo e ser assumida como um dever compartilhado pelos governos estaduais e municipais, assim como por todo o setor audiovisual.
Experiências como as do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, o Lupa, da Universidade Federal Fluminense; da Cinemateca das Quebradas, idealizada por Lincoln Péricles; do projeto Indeterminações; e do Vídeo nas Aldeias, promovem a (re)descoberta de obras e realizadores por meio de práticas de preservação, restauração, pesquisa e reapropriação de imagens e sons brasileiros.
Essas iniciativas recuperam obras e repertórios negligenciados historicamente e reconfiguram os próprios critérios que definem o que merece ser preservado. Nesse sentido, a preservação ocupa lugar estruturante na constituição de nossa soberania imaginativa.
A preservação audiovisual é um processo contínuo, permanente e ininterrupto, que não se encerra com o lançamento ou a circulação da obra. A preservação não é a etapa final da cadeia produtiva, mas sim o eixo estruturante do cinema.
É o que garante a possibilidade da redescoberta, da ressignificação, da reapropriação. A preservação, portanto, é condição indispensável para a sustentabilidade, inventividade, construção de imaginários e os modos de existência do audiovisual brasileiro no presente e no futuro.












