Fora da casca brutalista da Arca, galpão que recebe nesta semana a feira SP-Arte Rotas, em São Paulo, o circuito artístico da cidade ferve. Galerias gigantes escalaram seus grandes astros, enquanto casas menores têm montagens ousadas para apresentar nomes que vão do conceitualismo mais cabeçudo aos delírios cromáticos mais vendáveis.
É uma demonstração de esforços que reflete, ao mesmo tempo, a força do mercado de arte da maior metrópole do país e um desespero de investir pesado para evitar o desastre que se anuncia com as eleições de outubro. O sinal de alerta está ligado —em tempos de troca de comando no país, colecionadores tendem a fechar a cara e a carteira.
VALE DOS GIGANTES Galerias mais fortes no cenário ostentam artilharia pesada. A Luisa Strina mostra, em paralelo, a italiana radicada no país Anna Maria Maiolino, vencedora do Leão de Ouro na Bienal de Veneza, e o chileno Alfredo Jaar, um dos astros da mostra italiana agora em cartaz. A Fortes D’Aloia & Gabriel enquadra, também em dupla, Efrain Almeida e Ernesto Neto, este último outro veterano de Veneza e outras tantas paradas —suas instalações de crochê fino e grosso serpenteiam pelas paredes dos espaços da casa na Barra Funda e nos Jardins. A Nara Roesler também aposta no tecido, com a americana Sheila Hicks no comando de sua galeria nos Jardins em paralelo a uma retrospectiva no Instituto Tomie Ohtake, que entra em cartaz nesta mesma semana.
Outra veterana, a Vermelho dedica exposição belíssima aos fotógrafos Claudia Andujar e George Love, que foram casados a certa altura da carreira. É um retrato das afinidades e diferenças estéticas dos mestres.
Na Luciana Brito, além de uma individual de Fabiana de Barros, há um recorte delicado de fotografias de vasos e flores de Gaspar Gasparian, do americano Robert Mapplethorpe e de Rochelle Costi, morta, há quatro anos, num atropelamento.
Uma coletiva na Martins&Montero tem Luiz Roque, também com passagem pela Bienal de Veneza, e nomes históricos, entre eles Anna Bella Geiger.
CARNE FRESQUÍSSIMA Quatro jovens artistas lidam com tesão e suas consequências no centro. Na Quadra, na Santa Cecília, Matheus Chiaratti mergulha no que chama de homoerotismo rural, sua autobiografia erótica embalada pelas memórias do interior. Na sala ao lado, Helena Ramos mostra o corpo feminino em filtros quentes.
O francês Jean Claracq, na Mendes Wood DM, na Barra Funda, tem microquadros de um desejo transbordante, entre operários e rapazes de sunga cavada.
Na Sardenberg, em Higienópolis, Sofia Nehring faz uma investigação radical da imagem da mulher ultraprocessada pelas redes sociais e pelo “male gaze”, partindo de materiais viscosos, como a resina.
DESTINO METÁLICO Noutro registro, Heloísa Franco, na Mazzucchelli Cardoso, devassa a paisagem em obras pintadas sobre chapas de alumínio que ela risca até atingir veias luminosas, o raio que o parta da pintura. Na Danielian, o polonês Wojtek Kostrzewa reflete sobre a brutalidade paulistana em pinturas também sobre metal enferrujado. Enquanto isso, na Yehudi Hollander-Pappi, Gregory Bastos retrata a instabilidade com tanques de aço cheios de água, uma solidez enganável.
HORIZONTE PLÁSTICO Um céu de nuvens translúcidas, pequenas peças de plástico sobre o carpete, toma o chão do Orlando, espaço de frente para o parque Trianon. A obra de Estela Sokol é uma tempestade de luz para ser testemunhada ao vivo, com calma.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.











