Opinião – Plástico: Firma de Tarsila do Amaral põe morta em ata de lucros e inflama batalha familiar

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Opinião – Plástico: Firma de Tarsila do Amaral põe morta em ata de lucros e inflama batalha familiar


Uma presença notável —ou melhor, ausência— chamou a atenção de grande parte dos herdeiros de Tarsila do Amaral numa ata recente de resultados financeiros da empresa que está hoje à frente do controle dos direitos autorais da modernista. Na lista de presentes, apesar de indicada em letras maiúsculas como “falecida”, está uma herdeira já morta da artista visual que está entre as mais valorizadas do país.

O detalhe um tanto curioso, que, de acordo com advogados, não muda o efeito jurídico da partilha de rendimentos distribuídos aos herdeiros pela Tarsila do Amaral Licenciamento e Empreendimentos, a Tale, só inflamou mais a briga entre os seus descendentes. De um lado, os que estão dentro da sociedade e no comando do dinheiro e, do outro, aqueles que abandonaram o barco em repúdio à atuação dos atuais diretores da firma.

Nicolina Di Giacomo Amaral, a morta que aparece listada entre os presentes, era a mãe do desembargador aposentado Thales Estanislau do Amaral, um dos herdeiros bem vivos de Tarsila do Amaral que se voltou contra a Tale por discordar da conduta de seus atuais gestores, liderados por Paola Montenegro, ex-DJ e sobrinha-bisneta da artista com presença ativa nas redes sociais, em que promove os licenciamentos envolvendo a parente ilustre.

O principal motivo da contenda familiar é a destituição da comissão de especialistas que antes deliberava sobre a autenticidade das obras de Tarsila, também responsáveis por seu catálogo raisonné, o livro que lista todas as suas obras reconhecidas e funciona como bússola para um mercado de obras na casa de dezenas de milhões de dólares.

Nos últimos anos, houve disputas ferrenhas que põem em dúvida a autenticidade de uma tela atribuída à modernista e datada da década de 1920, um quadro mostrado na feira SP-Arte à venda por R$ 60 milhões, e uma série de desenhos também de suposta autoria de Tarsila do Amaral que não foi reconhecida por especialistas nem pelo mercado, mas sim, de modo unilateral, pelo atual perito contratado pela Tale.

Há ainda grande discórdia em torno de licenciamentos que uma ala dos herdeiros consideram vulgares, com imagens das obras de Tarsila estampando até calcinhas. Muito alarde também tem sido feito sobre uma mostra imersiva, ou seja, sem obras de verdade, que vai ocupar a partir de agosto o Nubank Art Lab, novo espaço patrocinado pelo banco no Conjunto Nacional, em São Paulo.

Na ata de resultados da Tale, além da morta, um erro de cálculo na quantidade de presentes também inflamou os ânimos —a lista de herdeiros contemplados, todos numerados, pula um número, do 12º presente vai direto para o 14º na ata.

O que poderia ser um erro de digitação é apontado pela ala contrária à Tale como tentativa da firma de inflar os seus quadros e demonstrar ter mais nomes a seu favor do que contra —uma assembleia realizada pelos que aderiram ao campo oposto, porém, desmente essa impressão. Num universo de quase 60 herdeiros de Tarsila do Amaral, de acordo com essas assinaturas, apenas 40% constam entre os apoiadores liderados pela DJ.

Esses opositores do atual regime, liderados por Tarsilinha do Amaral, a sobrinha-neta da artista que até o início da década era a responsável por seus direitos autorais, agora se organizam para mover uma ação contra a Tale para reaver o controle, já que, na visão deles, é a maioria dos herdeiros e não a minoria agora na firma que deveria se encarregar da gestão —uma ação anterior já havia dado ganho de causa a essa interpretação, de que a Tale não representa a totalidade dos descendentes da modernista.

Outra ação a ser movida pela oposição é um pedido de R$ 100 mil em indenização por danos morais contra três dos diretores hoje à frente da Tale, que fizeram acusações públicas contra Tarsilinha do Amaral, que dizem ter desviado R$ 2 milhões das contas da Tale, o que ela nega.

Procurados, representantes da firma dizem, por meio do advogado Paulo Soares, que não comentam a ata das reuniões da empresa nem seus resultados financeiros fora do âmbito do inventário da artista, acrescentando que todos os herdeiros têm acesso a essas informações caso queiram esclarecimentos.


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