Acho que não é só comigo. Definitivamente não é algo da minha bolha. Não conheço pessoalmente ninguém de Bangladesh, muito menos do Líbano, infelizmente.
Mas o algoritmo de minhas redes sociais insiste em me emocionar com cenas maravilhosas de torcedores uniformizados de verde e amarelo desses e vários outros lugares do planeta-bola. Extremamente empolgados, apoiam a seleção brasileira, comemorando e pulando a cada gol de nosso país.
Carros com bandeira no capô, apitos, cornetas e buzinas soando, músicas dançantes. E, sobretudo, alegria, muita alegria! Parece que estamos diante de qualquer rua brasileira empolgada com a seleção. Mas não! De repente aparece uma mulher de burca cruzando a multidão. Ou, no fundo, lê-se algo em árabe. Ou percebe-se um português falado com sotaque pelos torcedores.
Será que podemos chamar a seleção brasileira de “nossa” seleção? O que as imagens das redes sociais deixam claríssimo é algo que já sabíamos, mas a tecnologia tornou palpável instantaneamente: a seleção brasileira não é só do Brasil. Ela é do mundo, ou pelo menos de uma grande parte dele, dos que se identificam com o simbolismo que o futebol brasileiro construiu para o mundo.
Está aí uma pesquisa que valeria vários mestrados, diversos doutorados. O que os indianos, haitianos, angolanos, libaneses e diversas outras nacionalidades projetam na seleção brasileira a ponto de, em massa, vestirem-se de verde e amarelo e saírem, às multidões, para celebrar essa identidade? Sem compreender de fato o que nos faz atraentes para o resto do mundo, para além dos achismos, damos nosso maior tiro no pé no “soft power” brasileiro.
O “soft power” —ou poder brando— é a capacidade de um país influenciar outros não pela força ou coerção, mas pela atração. Baseia-se na projeção de cultura, valores políticos, diplomacia e estilo de vida para conquistar admiração e cooperação global. Ao contrário dos países com “hard power”, aquele do imperialismo cultural, da porrada e da via militar —e o maior exemplo aqui é os Estados Unidos—, somos em geral bem vistos ao redor do mundo. Mas não fazemos nada com isso.
Da bossa nova, adorada até no Japão, ao futebol brasileiro, que desde Pelé nos representa perante o mundo, nada é tratado como patrimônio brasileiro de exportação. Qual a política cultural do Itamaraty diante de tamanho simbolismo esportivo? O que faz o Ministério da Cultura, que até hoje não conseguiu providenciar um museu da bossa nova em Ipanema ou Copacabana?
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Quando Michel Teló conseguiu sucesso mundial com “Ai se Eu Te Pego” em 2012, o Ministério da Cultura negou-se a patrocinar a excursão do cantor pela Europa. Enquanto isso, o Estado coreano investe firme na divulgação do k-pop pelo mundo, deixando-nos a comer poeira.
Como não nos apropriamos ativamente de nosso ‘soft power’ global, continuamos sendo meros exportadores de jogadores e artistas. Na cultura exportadora do século 21, nossas riquezas são apropriadas pelas potências estrangeiras mais por incompetência nossa do que por força imperialista de fora. Entregamos nosso ouro de bandeja.
Espanta nos vídeos dos torcedores de Bangladesh ou do Líbano que a quase totalidade dos entusiastas da Seleção Brasileira sejam jovens, a maioria com menos de 25 anos. Nem viram o Brasil ganhar uma Copa. Ou seja, mesmo diante da memória do 7 a 1 e da apropriação bolsonarista da camisa da seleção, nada parece ter afetado a identificação histórica que os estrangeiros, especialmente do “terceiro mundo”, têm com o Brasil.
Mesmo sem termos um Pelé para renovar o imaginário vitorioso, esta identidade conseguiu se reciclar e não virou algo da memória do vovô. Não. As massas globais juvenis ainda são brasileiras.
Ou será que nós é que somos deles? Se quisermos dialogar com este Brasil do mundo, é preciso ouvi-los de fato, buscar contato, fazer política cultural e esportiva, entender o que eles projetam em nós e lidar com isso para além de nossos próprios desejos. O que não dá mais para tolerar é jogarmos esse trunfo no lixo mais uma vez.
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