Nos almoços de domingo com familiares e amigos do meio acadêmico, quando os ânimos se exaltam por conta da cobertura jornalística, me apontam o dedo e soltam: “Qual é o problema de vocês da imprensa?!”.
Deve acontecer o mesmo com colegas que trabalham em empresas de comunicação, do trainee ao chefe.
Referem-se a editoriais, a programas de debate e a uma cobertura política que, no Brasil, costuma ser mais dionísica que apolínea, em que a razão é sobreposta pela paixão, o cérebro é domado pela bílis.
Durante dois anos em que fiquei sem coluna, me libertei da pecha de ser “o” representante do complô do Partido da Imprensa, que imaginam que seja como uma loja maçônica frequentada por donos de meios de produção. Voltei para a Folha, voltaram as acusações.
Ouvi no último feriadão: “Por que vocês não informam corretamente, é incompetência ou manipulação?”. Contei que o jornal tem o dever da crítica e a pluralidade na essência, e que a esquerda o acusa de ser de direita, e vice-versa.
Para a ciência, deturpação é inconcebível, manipulação ou omissão de dados, um crime. O power point da Globo News, “Conexões de Daniel Vorcaro”, já entrou para a história como um deslize de arte delirante, com ardor freudiano de verdade versus desejo.
Depois de anos de um comportamento digno, isento, enfrentando pressões do vingativo e ameaçador (em cassar licenças) governo anterior, somadas a uma tentativa de golpe, tutelou a defesa da democracia, retomou o troféu da ideologia acima da notícia? A emissora apontou o erro e se desculpou.
O climão vale-tudo das redes sociais contaminou a imprensa faz tempo. Engrandecerá quem souber dosar e exalar serenidade. A grande imprensa pode ser um fator de equilíbrio no mundo descompensado pela desinformação e notícia falsa.
“Deu no New York Times”, “Tá no Guardian”, “Saiu no Le Monde” são selos de confiabilidade como “A Nasa provou”, “Pesquisa da USP” ou “Harvard descobriu”. Sem a grande imprensa, a notícia será cartilha.
Mas em 19/4, publicou o Estadão: “Do alto de sua experiência como ex-presidente que, em seu tempo de governo, parecia mais preocupado em governar do que na eleição seguinte, Temer ensina o oposto do que pregam os protagonistas da polarização”.
E concluiu: “Democracias sólidas avançam de forma incremental, não por rupturas”.
Temer, em complô, alimentou a derrubada de um governo eleito, iniciando um processo de desorganização institucional. Impopular, ele não conseguiria ser reeleito, instaurou um governo só de homens brancos, abriu caminho para a extrema direita e foi ser assessor de Vorcaro, no alto de sua experiência.
O maior legado foi a conspiração, criar uma ruptura “com STF, com tudo”, desmembrando valores republicanos. Foi protagonista na ópera da polarização, quando antes PT e PSDB se revezavam no poder pacificamente.
Por que o jornal não informou ao leitor (seu consumidor) os dilemas da ascensão? No editorial da Folha do dia seguinte, um texto que por pouco não se assemelha ao programa de um partido neoliberal (ou newsletter de banco):
“Dada a mixórdia de artifícios contábeis utilizados na apuração dos resultados do Tesouro Nacional ao longo dos últimos anos, hoje o indicador mais claro e confiável para avaliar a política fiscal é a evolução da dívida pública —e ela aponta um fracasso alarmante neste terceiro mandato de Lula“.
Em seguida, compara a dívida pública de Lula 3 (71,7% do PIB) com a de Dilma (65,5%), colando o nome de um no da outra. Fracasso alarmante?
Depois de hipérboles, poderiam vir dados: o PIB cresceu, o dólar caiu, Bovespa flertou o patamar dos 200 mil pontos, contra 60 mil em 2016, o desemprego despencou, a renda média do trabalhador cresceu 5,7%, e o setor agrícola, 11% em 2025. A inflação de Dilma chegou a 10,7% em 2015, e o desemprego foi a 12% em 2016.
O editorial lembra que é normal países ricos terem dívidas públicas altas, como Japão (200%), EUA (120%) e China (112,5%). Mas eles têm moeda forte e capacidade de crédito, e o Brasil não, explica. Ou melhor, não explica.
São os juros altos (herdados do BC do governo anterior), subsídios, sonegação, dívidas dos estados, penduricalhos, precatórios, emendas parlamentares? Vão culpar, como sempre, os programas de auxílios sociais? De onde vem o fracasso?
A economia, afinal, vai bem? Se não se explica o paradoxo dos números, o leitor fica com o sorvete derretendo na mão. Se não se mostra a antítese, um texto corre o risco de virar panfleto.
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