Todos temos nossos momentos de megalomania. Eu não sou exceção: se mandasse no mundo, todos os alunos, dos seis aos 18 anos, teriam de frequentar uma aula extra na escola. Além de matemática, ciências ou da língua materna, haveria “stand-up comedy” como disciplina obrigatória.
As vantagens são tão óbvias que chega a ser constrangedor citá-las. Entre as mais imediatas: confiança pessoal para falar em público, destreza verbal para se comunicar com os outros —e, sobretudo, treino contínuo para transformar as tristezas da vida em material humorístico.
Nada escaparia: a família, os amigos, os amores. As frustrações, os medos, as falsas esperanças. Quando não conseguimos nos livrar dos esqueletos que temos no armário, disse George Bernard Shaw, o melhor é ensiná-los a dançar. Ou a rir, acrescento eu.
Em uma ou duas gerações, aposto que teríamos adultos menos neuróticos, menos fanáticos, menos propensos a cancelar os outros. A estupidez é irmã gêmea da falsa seriedade.
Foi nisso que pensei quando assistia, grato e maravilhado, ao filme “Isso Ainda Está de Pé?”, dirigido por Bradley Cooper. Como foi que o filme me escapou quando passou nos cinemas?
No centro da história estão Alex e Tess —notáveis Will Arnett e Laura Dern—, separados depois de 26 anos de vida em comum. As razões da separação são um mistério —para nós e para o próprio Alex. Uma noite, não exatamente sóbrio, Alex resolve entrar em um clube de comédia em Nova York. Não para assistir. Para subir ao palco. Essa é a primeira piada.
A segunda é que ele não tem piadas para contar, o que também não deixa de ser uma ilusão: a vida dele é a melhor piada que existe.
O público ri da estranheza. Depois, das histórias que ele conta —o casamento, os filhos, os pais. Alex ri também, como se as ouvisse pela primeira vez, agora sob um ângulo cômico.
A experiência é viciante. Ele volta uma noite, depois outra, e mais outra ainda. É um péssimo humorista, dizem os profissionais, embora elogiem sua ingenuidade.
A ex-mulher, por puro acaso, assiste a um dos números. E também ela se ouve como personagem principal. Dizer que gosta seria um exagero, mas não é que gosta mesmo?
A infelicidade em que Alex vive não desaparece. De certa forma, transforma-se em clareza e perdão. E, com essa nova perspetiva, a pergunta fundamental: ele é infeliz com o casamento ou infeliz no casamento? Uma diferença sutil, que geralmente escapa aos amantes desencontrados.
Não escapa a Alex: a capacidade irônica que ele teve de sair de si mesmo, de se olhar como objeto de riso e estudo, permitiu-lhe chegar às coisas realmente sérias.
Como lembrava o escritor Martin Amis, só podemos saber o que é sério quando conhecemos também o que é engraçado. O humor não é uma fuga à seriedade, mas um caminho até ela.
Pessoas sem humor não são, por definição, mais sérias. São literais, condenadas a viver na superfície das coisas —onde tudo parece urgente e nada é verdadeiramente importante.
Regresso ao início: todos temos nossos momentos de megalomania. Se eu mandasse no mundo, haveria “stand-up comedy” no currículo das escolas. Quando tornamos as nossas dores visíveis e ridículas, elas ficam finalmente ao nosso alcance.
P.S.: É uma triste ironia saber que, nos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o historiador Gordon S. Wood não estará entre os vivos para festejar. Morto recentemente, aos 92 anos, vítima de um acidente de trânsito, Gordon Wood foi um dos grandes intérpretes do nascimento da república americana.
Suas obras centrais, como “The Radicalism of the American Revolution”, vencedor do Pulitzer, são uma refutação brilhante da ideia de que 1776 foi uma mera rebelião de ingleses contra ingleses por causa de impostos —o célebre bordão “no taxation without representation”.
Na verdade, a independência foi o desfecho de um longo processo de emancipação das colônias, alimentado pelo crescimento demográfico, pelo enriquecimento comercial e pelo aprofundamento de ideias liberais que, ironicamente, os colonos aprenderam com os próprios ingleses da metrópole.
A independência não foi perfeita? Claro que não —a manutenção da escravidão é sua principal mancha. Mas também aqui Wood lembrou o óbvio: a nova gramática liberal inaugurou uma linguagem de emancipação que, nos séculos seguintes, seria mobilizada contra os seus próprios limites.
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