Opinião – Joanna Moura: Onde estão os namorados?

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Opinião – Joanna Moura: Onde estão os namorados?


Dia 12 foi Dia dos Namorados, a data do calendário reservada aos amantes. Confesso que depois de 11 anos morando fora do Brasil, a data havia caído em desuso no meu relacionamento.

Lá na Inglaterra, o equivalente ao dia 12 de junho brasileiro é o Valentine’s Day, ou Dia de São Valentim, que acontece todo dia 14 de fevereiro, quando o frio ainda é intenso demais pra qualquer comemoração que envolva sair de casa ou —deus me livre— se despir. Passei, portanto, os últimos 11 anos comemorando o dia deste santo do amor em casa, encasacada e, via de regra, invejando pela internet a nudez alheia durante o Carnaval brasileiro.

Este ano, pela primeira vez, cá estava eu novamente, vivendo o dia 12 de junho in loco. Depois de tanto tempo longe, sinto, no entanto, que me tornei uma observadora mais imparcial, capaz de ter um olhar menos envolvido e mais antropológico da data. E nessa nova posição, neste primeiro Dia dos Namorados depois do meu hiato de mais de uma década, observei um fenômeno interessante —porém não tão surpreendente— emergir das redes sociais.

Eu sou do tempo em que se comemorava Dia dos Namorados na privacidade dos jantares à luz de velas, das cobertas dos motéis, dos cartões que acompanham buquês de rosas vermelhas. Mas o que vi neste 12 de junho foi brotarem do chão virtual do Instagram declarações tão apaixonadas quanto públicas.

Carrosséis de fotos mostravam casais de mãos dadas, com cabelos ao vento e peles bronzeadas em viagens litorâneas, e também de casacos pesados em invernos estrangeiros. Nas legendas, elogios sinceros e agradecimentos pelo companheirismo. Assinado: namoradas, esposas, companheiras.

Depois de um, dois, três posts de autoria de mulheres, fui buscar o contraponto, algum indício de reciprocidade destes amores tão bonitos. Clico nos nomes mencionados, os objetos do amor dessas enamoradas, e qual não é a minha surpresa quando não encontro nada. Feeds inteiros sem um mero indício de que aqueles homens estavam em qualquer tipo de relacionamento amoroso.

Um olhar mais cínico diria que, se o Instagram se tornou uma das principais arenas de conquista desse mundo moderno, a assimetria da performance pública do amor só poderia ser indício de infidelidade por parte destes homens tão discretamente comprometidos. Mas prefiro redirecionar o olhar de volta para a mulher e a necessidade de declarar este amor romântico na praça pública da internet, mesmo que essa declaração não encontre eco do outro lado.

Parto para a análise dos comentários e lá encontro os únicos vestígios desses parceiros: agradecimentos curtos e discretos, perdidos em meio a inúmeros comentários entusiasmados e congratulatórios de —pasmem— outras mulheres.

“Lindooooooos!”

“Amo esse casal!!!!”

“Parabéns pelo amor de vocês!”

Legendas direcionadas aos parceiros. A conversa, porém, acontece entre mulheres.

A dissonância não me parece apenas mera coincidência. Ela significa algo mais profundo e arcaico: o peso que os relacionamentos românticos ainda exercem na maneira como nos definimos e como somos vistas. Em 2026, ainda vemos um relacionamento amoroso exitoso como um símbolo de status para as mulheres. Como uma conquista, uma realização, algo que deve e merece ser compartilhado.

Ao passo que, aos homens, o status advém não de quem os ama, mas do que são capazes de fazer: do trabalho que exercem, das viagens que realizam, dos hobbies que mantêm. Não que os homens amem menos ou queiram necessariamente esconder suas parceiras (se a carapuça serviu por aí, não me responsabilizo), mas raramente parecem utilizá-las como cartão de visitas social. Basta rolar o feed deles para ver.

Não estou aqui para desencorajar as últimas românticas, mas talvez valha a pena se perguntar por que e para quem estão indo as declarações apaixonadas. E se é isso que realmente buscamos.


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