Crítica: Tan Dun traz a São Paulo suas músicas evocativas dos efeitos da natureza

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Crítica: Tan Dun traz a São Paulo suas músicas evocativas dos efeitos da natureza


Ao invés da habitual instrução para que o público desligasse os celulares, o que se viu nesta sexta no Theatro Municipal foi justamente o contrário: ao entrar no palco, o compositor Tan Dun solicitou que a plateia, por meio de um QR code projetado em cena, baixasse um arquivo de áudio em seus celulares e deixasse o volume no máximo.

Foi feito, então, um rápido ensaio com o público, combinando o comando do maestro tanto para disparar como para pausar o arquivo eletrônico que traz sons de pássaros emulados por instrumentos tradicionais chineses.

Assim, quando chamada, a audiência participou ativamente da performance de “Passacaglia: Segredo do Vento e dos Pássaros” —que estreou em 2015 no Carnegie Hall de Nova York—, obra para orquestra sinfônica e celulares do compositor e maestro chinês radicado nos Estados Unidos.

Seguindo o esquema das passacaglias barrocas, um ciclo –aqui de apenas sete notas– é repetido obsessivamente, servindo de estrutura para múltiplas variações contrastantes, nas quais todos os ingredientes da música de Tan Dun estão presentes.

Nascido há 68 anos na província de Hunan, no centro da China, Tan Dun estudou no Conservatório Central de Pequim e, depois, na Universidade de Columbia, em Nova York, onde obteve o doutorado em artes.

Mundialmente célebre após vencer o Oscar e o Grammy pela trilha sonora de “O Tigre e o Dragão“, de Ang Lee, sua música chegou ao grande público mostrando orquestrações exuberantes e melodias expressivas, cheias de “glissandos” —quando uma nota desliza continuamente para a outra—, inspiradas nas tradições instrumentais e vocais da Ásia Oriental.

De forma muito hábil, partindo de um efeito nas duas harpas, a sonoridade orquestral se constrói pouco a pouco de modo que a intervenção da plateia, a “floresta repleta de pássaros”, se encaixe com perfeição no todo.

As influências musicais ocidentais de Tan Dun partem da escola impressionista francesa, que sempre esteve aberta e acolhedora à introdução de elementos étnicos não ocidentais. Nesse contexto insere-se especialmente a segunda peça do programa, o “Water Concerto – Concerto para Percussão e Orquestra”, de 1998, uma das mais cultuadas composições do artista.

O concerto para instrumentos de percussão que usam sons de água –dois recipientes cheios de líquido são cuidadosamente microfonados para integrar um criativo set percussivo– é dedicado ao compositor japonês Toru Takemitsu, elo importante entre a geração de Debussy e a de Tan Dun, que também dialoga com as técnicas minimalistas desenvolvidas nos anos 1960 e 1970.

Em três movimentos contrastantes, o concerto teve como solista a virtuose chinesa Lin Zhe. Ela foi quem demonstrou maior direcionalidade harmônica, para além das repetições de blocos sonoros estáticos.

Os filósofos medievais costumavam separar a “natureza naturante” (natura naturans, em latim), o modo de operar da natureza, isto é, suas estruturas, da “natureza naturada” (natura naturata), os efeitos naturais diretamente perceptíveis pelo nosso aparato sensorial.

Nesse sentido, a relação da música de compositores como Béla Bartók –e mesmo, mais atrás no tempo, Bach– com a natureza está mais próxima de seu aspecto estruturante, enquanto Tan Dun flerta com a singeleza da experiência vivencial explicitada.

É uma música de estruturas simples, e que traz um forte componente lúdico, o que também se mostrou na “Sinfonia das Cores”, espécie de suíte em sete movimentos concebida a partir de sua ópera “O Primeiro Imperador”, que estreou em 2006 no Metropolitan de Nova York. No final, uma contaminação sonora invoca o balé “O Pássaro de Fogo”, de Stravinsky.

Tan Dun rege a própria música com personalidade e generosidade. Cuida de cada efeito; dá liberdades, mas preza o pulso marcado. A partitura convida os instrumentistas a adicionar, às vezes, pequenos efeitos vocais, como gritos súbitos e precisos, ou o cantar de notas longas sustentadas.

Para a Orquestra Sinfônica Municipal, a temporada não poderia estar mais variada. Nada pode ser tão díspar do que, no intervalo de poucos meses, fazer a ópera “Intolleranza 1960“, de Luigi Nono, e agora tocar as composições de Tan Dun conduzidas por ele mesmo.

Entre ambas as experiências a orquestra enfrentou um dos maiores desafios de sua história, a saber, a realização de uma musicalmente impecável série de récitas da ópera “Tristão e Isolda“, de Richard Wagner.



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