Há muitos anos eu me autodiagnostiquei como hipocondríaca. O autodiagnóstico veio ainda bem jovem, assim que descobri a palavra e seu significado —alguém que sofre de hipocondria, a condição psiquiátrica relacionada a uma preocupação excessiva e persistente em ter ou contrair uma enfermidade grave—, e foi imediatamente internalizado como obviamente correto uma vez que havia sido precedido por anos de outros autodiagnósticos embasados por sinais físicos, vozes da minha cabeça e buscas no Google.
Um dos sintomas do transtorno é a interpretação catastrófica de sensações corriqueiras. Qualquer dor de cabeça vira, para o transtornado, indício de doença grave, qualquer cansaço vira potencial sentença de morte.
Desde que tive filhos, tento adicionar uma boa dose de racionalidade ao catastrofismo que me é inerente, tentando não tornar qualquer sintoma que apresentem em uma ida desnecessária ao pediatra. E nisso tenho sido bem-sucedida. O que não quer dizer que tenha me curado da irracionalidade com que encaro meus próprios sintomas. Ultimamente, tenho ocupado horas da minha semana pesquisando sobre dores nas costas. E, mesmo diante de uma montanha de indícios que apontam para minha má postura como a causadora das dores, sigo aguardando o momento em que terei que ser levada ao hospital às pressas com o apêndice perfurado.
Naturalmente, a possibilidade da morte é algo que ronda a mente do hipocondríaco, e no meu caso não é diferente. Sofro com alguma frequência pensando na possibilidade de não ver meus filhos crescerem, de não poder abraçá-los, sentir o cheirinho deles, comemorar suas vitórias e lamentar suas derrotas, ouvir sobre seus amores e desamores.
Eis que, outro dia, um novo e refrescante pensamento intrusivo me consolou. Ele veio enquanto observava meu marido com nossos dois filhos. Enquanto ele colocava os uniformes escolares nos dois e escovava seus dentinhos antes de levá-los para a escola, verificando suas mochilas para se certificar de que estava tudo ali, pensei comigo mesma: “Se eu morrer, ele dá conta”. E rapidamente me corrigi: ele tira de letra.
Não acredito em vidas passadas, mas se acreditasse diria que vim para esta aqui com um carma acumulado muito bom. Escolhi esse homem para dividir a vida comigo quando ainda nem pensava em ter filhos, sem saber o pai que ele viria a ser. Dei sorte onde muitas amigas não deram. Casaram-se com homens que prometiam muito, mas, chegada a paternidade, entregaram muito pouco. Homens legais, bons de papo, bons de cama, bons de viajar junto, de ver Netflix, mas que, como pais, prestam para muito pouco. Não sabem a agenda de atividades, nem o nome do pediatra, não sabem onde mora a caderneta de vacinação, nem têm o telefone da babá, não estão nos grupos de WhatsApp da turma, não frequentam as reuniões da escola, nunca falaram com os professores, nunca compraram um presente para os aniversários dos colegas e nunca saíram do trabalho mais cedo pra buscar uma criança que passou mal.
Todas
Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Ao me dar conta de que o homem que escolhi para ser pai dos meus filhos (por sorte ou competência minha) se enquadra nessa rara categoria de pai efetivamente e integralmente presente, tive ainda mais pena das amigas que não deram essa sorte. Além de exaustas física e emocionalmente, caso sejam hipocondríacas como eu ainda devem ser atormentadas pela preocupação com o desamparo em que se encontrariam os filhos caso elas morressem.
Suspirei tranquila do alto do maior privilégio que uma mãe hipocondríaca pode ostentar: poder morrer em paz, sabendo que seus filhos serão bem cuidados.
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