Opinião – Inácio Araujo: Inventiva, comédia ‘Beijo 2348/72’, com Fernanda Torres, segue prazerosa

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Opinião – Inácio Araujo: Inventiva, comédia ‘Beijo 2348/72’, com Fernanda Torres, segue prazerosa


Às vezes, um filme antigo nos revela um velho mundo. É o caso do “Beijo 2348/72”, de 1990, com uma nova cópia que será exibida, nesta sexta (29), na Cinemateca Brasileira, como parte do Programa Revisão Crítica do Cinema Brasileiro.

É um filme que nos mostra uma tecelagem em São Paulo. Uma indústria enorme em funcionamento. Dentro, operários e operárias. Fora, pequenas casas, o ponto de ônibus, as ruas. Dentro, acontece a comédia. Norival —papel de Chiquinho Brandão— é atazanado pela falante e casadoura Valdete —Fernanda Torres—, mas está de olho na séria e casada Catarina —Maitê Proença.

De tanto dar em cima de Catarina, acaba sendo acusado de tê-la beijado em pleno expediente e é demitido por justa causa. O tal beijo durante o expediente, a demissão e o processo que veio a seguir realmente aconteceram.

Todo o resto devemos ao diretor, ao roteirista, à equipe, aos atores. Mais do que todos, a Chiquinho Brandão. Esse comediante notável —morto prematuramente, em 1991, aos 39 anos—, é essencialmente quem dá vida às ideias do cineasta Walter Rogério. E ali tem de tudo.

Num momento, estamos numa comédia burlesca, pouco depois vamos para o “slapstick” —a comédia maluca, que quem domina, aqui, é a jovem Fernanda Torres. Podemos até cortejar a comédia romântica —o comando passa a Maitê Proença. Mas voltamos sempre a Brandão, ou Norival. Ele pode fazer um Chaplin ou um Buster Keaton, pode invadir o território silencioso, mas povoado de mínimos ruídos, de Jacques Tati ou frequentar o nonsense de Jerry Lewis.

As espertezas que abrem caminhos ou os percalços que os barram ali estão e nos fazem rir. Como um velho bairro fabril amanhece novo —na bela direção de arte de Beto Mainieri—, esses velhos e imbatíveis comediantes retornam para mostrar de São Paulo uma face mais sorridente, mais lúdica, em que a repressão que afasta o casal de amantes se dobra ao malandro sonhador que é Norival.

Assim também, aquela virada dos anos 1980 para os 1990 talvez tenha sido osso duro na produtiva São Paulo, mas ainda era possível a imaginação imaginar alguma esperança para o anárquico Norival e suas divas.

Sendo um filme que se pode hoje admirar tanto quanto há 30 anos —permanece original do mesmo jeito—, é preciso dizer que também traz à lembrança alguns problemas que já se manifestavam na sua estreia.

O primeiro, maior, deles é não ter podido criar para Norival uma cara, um tipo particular, algo que correspondesse à força da mímica do ator. Isso quase acontece no momento rápido em que ele se disfarça para melhor vigiar a casa de sua namorada.

O aproveitamento das atrizes também é muito bom. Não é impossível que Maitê viva um dos melhores momentos de sua carreira no instante em que é puxada para longe de Norival, durante a paródia de “A Idade do Ouro”, de Buñuel.

E Fernanda Torres retoma o tipo de garota assanhada de “Marvada Carne”, agora com um sotaque metropolitano que faz toda a diferença. No início, Walter Rogério parece se encantar com a interpretação e cerra a imagem da atriz até chegar a um plano próximo demais de seu rosto. Mas isso passa, e o diretor parece encontrar a distância melhor nos enquadramentos.

Por fim, a fotografia franca está bem próxima ao tipo de luz das comédias de Jerry Lewis, por exemplo. Se tivesse o tempo —ou o dinheiro, o que em geral é a mesma coisa em cinema— para encontrar um tipo mais marcante para Norival, “Beijo 2348/72” seria um filme exemplar. Como está, continua digno de ser visto com muito prazer por qualquer fã de comédias inventivas.



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