Opinião: Exposição sobre Marília Mendonça tem méritos, mas é superficial

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião: Exposição sobre Marília Mendonça tem méritos, mas é superficial


Não deixa de ser irônico que justamente o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, o MIS, localizado no bairro nobre do Jardim Europa, abrigue a exposição “Marília Mendonça – Sentimento Louco”. Por preconceitos elitistas, a música mais popular brasileira, incluindo a sertaneja, durante muito tempo foi solenemente ignorada por acadêmicos e críticos.

Museus, por sua vez, ainda estão associados a cânones da cultura erudita, o que constitui uma barreira simbólica para que a população se aproprie deles, reconhecendo-se no que é exposto. São louváveis, assim, iniciativas como a exposição “Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade“, no Museu da Língua Portuguesa, que lamentavelmente teve seu término antecipado por razões políticas.

O MIS vem demonstrando preocupação em contemplar, em suas exposições, nomes de forte apelo popular, o que tem atraído multidões e dado visibilidade ao museu. Se Rita Lee, Ney Matogrosso, Raul Seixas e Renato Russo são populares, por outro lado são vistos como artistas de MPB e rock e, portanto, respeitados pela elite cultural. Nesse sentido, a escolha de Marília Mendonça se equipara mais à de Silvio Santos, tema de uma exposição em 2016 e 2017.

A geração de Mendonça, ao contrário da de Rita Lee, deixa muito mais vestígios virtuais do que materiais, como cartas, o que poderia representar um desafio para a exposição reunir um acervo relevante. No entanto, anotações da cantora em cadernos, agendas e recados escritos à mão a ela quando deu à luz seu filho Leo estão presentes na exposição. É um mérito também que “stories” que a artista gravava para os fãs, um elemento supostamente efêmero, sejam resgatados e expostos como acervo histórico.

A exposição, com razão, reconhece a importância de Mendonça para a história da música sertaneja, mas desliza para uma análise demasiadamente laudatória e que acentua principalmente seu sucesso comercial, focando nos números recordes que envolvem sua carreira, como o de visualizações no YouTube e de streamings em plataformas musicais.

A ênfase no aspecto comercial, porém, infelizmente não se restringe à análise da carreira da sertaneja. Ainda que seja legítimo haver patrocínio ou apoio financeiro de uma empresa privada a uma exposição em um equipamento público estadual, a exposição adquire uma cara de estande de vendas quando sua sala principal é ocupada por um telão que exibe trechos da série documental “Marília”, que estreará em breve no streaming, com o nome da plataforma em destaque luminoso, e quando as cabines de jukebox, que permitem escutar músicas de Mendonça, incentivam o público a baixar o aplicativo musical dessa mesma empresa.

O ponto alto de “Marília Mendonça – Sentimento Louco” é a disponibilização de roupas, acessórios, prêmios e instrumentos da cantora. O conteúdo textual, por outro lado, muitas vezes é superficial e omisso. Os álbuns, EPs e singles poderiam ter sido melhor contextualizados, assim como o próprio momento da música sertaneja em que Mendonça surgiu.

Goiânia é retratada como a capital da música sertaneja nos anos 2010, quando é justamente nesse momento que ocorre um deslocamento da centralidade desse gênero musical para Campo Grande. A importância da cantora para o fortalecimento das mulheres em um meio machista é exaltada, mas não há menção a cantoras que a antecederam e abriram caminho, como Roberta Miranda.

Se a parceria de Mendonça com Maiara e Maraísa é sublinhada, nada se fala sobre outras parcerias importantes com artistas de outros gêneros musicais, como as que fez com Anitta e Gal Costa, que ajudaram a trazer prestígio para a artista junto a um público mais intelectualizado.

Por fim, em tempos em que artistas são cobrados de forma bastante incisiva e às vezes desrespeitosa para declarar seus votos nas eleições, a exposição ignora o episódio em que uma das poucas artistas que conseguiam unir todo o país foi pressionada a aderir à campanha antibolsonarista “Ele Não”, em 2018, recuando instantes depois devido a ataques sofridos por ela e sua família.

Mesmo com essas omissões, “Marília Mendonça – Sentimento Louco” é uma iniciativa bem-vinda e com vários méritos. Que seja apenas o primeiro passo para a musealização da Rainha da Sofrência.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *