Li um artigo de Nicholas Kristof no jornal The New York Times sobre as denúncias de violências sexuais contra palestinos em prisões israelenses. O texto foi publicado nesta terça-feira (12) pela Folha graças à parceria entre os dois jornais e trouxe ao leitor informações detalhadas sobre estupros em série cometidos por oficiais do Exército e da guarda penitenciária de Israel.
É preciso voltar a 7 de outubro de 2023. Naquele dia, homens do Hamas atacaram uma multidão. Assassinaram e sequestraram centenas de pessoas. Cometeram atos de violência sexual contra mulheres israelenses. A reação de Israel já dura quase três anos. Resultou em milhares de mortes: as estimativas mais conservadoras confirmam ao menos 70 mil, entre elas milhares de crianças, mulheres e idosos. E um sem-número de pessoas foi preso. Além disso, uma região foi reduzida a escombros. Os acessos seguem cercados e controlados. Fome, mutilações e doenças assolam os palestinos.
Passada tamanha destruição, já é inviável enxergar uma “violência original” que ainda possa sustentar a continuidade desse morticínio em massa, quaisquer que tenham sido as atrocidades cometidas pelo Hamas naquele outubro. O que dizer então de uma “equivalência” entre as violências? Um absurdo ético.
Além disso, é fundamental considerar o contexto histórico. Décadas de sucessivas guerras e de crescente dominação do território palestino desafiam a noção de um ato “original” num ciclo em que as violências se repetem. Esse contexto reforça os questionamentos sobre soberania e legitimidade do Estado na região —questão tensionada em torno de fórmulas como “Palestina do rio ao mar”ou “solução de dois Estados”.
Na quadra atual, uma incomparável disparidade de forças nos impede de classificar essa situação como um “confronto”. Ocupação do território, controle dos recursos, maior desenvolvimento tecnológico e maior poderio financeiro e militar se traduziram no assassinato perene de um povo. Por isso, muito mais próxima da realidade está a classificação do que ocorre em Gaza como genocídio, conforme apontam inúmeras nações e organizações de direitos humanos.
Quando não são mortas ou dilaceradas, pessoas da Palestina são espancadas e presas—em sua maioria homens. Muitas morrem sob custódia do “exército vencedor”, em condições inomináveis de desumanidade, ou sobrevivem com sequelas e traumas.
Voltando a Kristof, são muitos os relatos de estupro nas prisões israelenses. Eles foram reunidos tanto em relatórios da ONU —que apontou “um padrão disseminado de violência sexual israelense contra homens, mulheres e até crianças, cometida por soldados, colonos, interrogadores da agência de segurança interna Shin Bet e, acima de tudo, por guardas prisionais”— quanto em depoimentos de homens, mulheres e meninos para a reportagem.
“Muitos disseram que frequentemente tinham os genitais puxados ou eram espancados nos testículos. Detectores manuais de metal eram usados para sondar entre as pernas nuas de homens e depois golpeados contra suas partes íntimas; alguns homens tiveram de amputar os testículos após”, afirma o texto.
Em um dos relatos, o jornalista Sami al-Sai, preso em 2024, descreve como sofreu um estupro com um cassetete de borracha em uma sala de tortura. A reportagem cita o CPJ (Comitê para a Proteção de Jornalistas), entidade norte-americana que entrevistou 59 jornalistas palestinos libertados por autoridades israelenses depois de 2023. Dois afirmaram ter sido estuprados; mais de 15 disseram ter sofrido outras formas de violência sexual.
Isso apenas entre profissionais da imprensa. Há um contexto de silenciamento duplo que atravessa os homens violados: silenciados por medo de retaliação do governo de Israel e também pela própria sociedade patriarcal —seja ela judaica, muçulmana ou cristã—, que desencoraja denúncias masculinas em razão da vergonha e do prejuízo aos valores de virilidade feridos pelo estupro.
Há, no entanto, um ponto de convergência. Israel nega abuso sexual de suas forças contra a população palestina encarcerada. O Hamas, por sua vez, nega ter estuprado mulheres israelenses naquele 7 de outubro —embora isso seja corroborado por testemunhos e vídeos dos ataques. No caso de Israel, a negativa persiste ainda diante da extensa investigação que aponta estupros sistemáticos como arma de guerra —em outras palavras, um crime de guerra.
Em breve vou trazer um texto sobre a dignidade sexual no contexto de crimes do Exército russo contra a população ucraniana.
Porque o primeiro passo para que a violência sexual deixe de ser um subtexto tolerado nas guerras é recusar-se a fazer vista grossa conforme a nacionalidade do algoz.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.














