Nesta semana, o programa Mano a Mano, conduzido por Mano Brown e Semayat Oliveira, presenteou o público com uma entrevista monumental. Na cadeira de convidado, estava o professor Kabengele Munanga. O episódio serviu de impulso definitivo para esta coluna: um momento de pausa, escuta e reverência a esse brilhante pensador congolês-brasileiro.
Professor emérito da Universidade de São Paulo, aos 85 anos de idade Munanga é baluarte da intelectualidade negra brasileira. Tive a oportunidade de dizer ao professor, algumas vezes, sobre a honra que é estar em sua presença. Há alguns anos, fomos apresentados pessoalmente na festa de aniversário do querido escritor e colega colunista desta Folha Tom Farias.
Desde então temos trocado mensagens e nos encontrado em eventos sociais, como a inesquecível honra de sua presença em minha festa de aniversário, em 2024. Generoso, o professor segura na mão das professoras mais novas: me aconselha, fica feliz com minhas conquistas, me parabeniza pela NYU, pelo MIT, pelo livro novo, e se mostra presente ao escrever-me mensagens lindas, que guardo como relíquias e norte.
Para mim, o professor Kabengele é um pai, um sábio, um amigo querido, um irmão e um colega mais experiente, decano cuja orientação acadêmica eu gostaria de ter tido o privilégio de receber.
O professor Munanga orientou pesquisas que se tornaram obras fundamentais para as ciências sociais no Brasil. Em particular, durante minha docência na PUC-SP, na disciplina de jornalismo contra-hegemônico, o livro “Mídias – Concessão e Exclusão“, publicado pela editora da USP, foi a espinha dorsal do semestre. A obra, resultado do mestrado do saudoso professor Osmar Teixeira Gaspar, que foi seu orientando, exemplifica a linhagem crítica que Munanga ajudou a forjar.
Recomendo a entrevista no programa –o qual, aliás, se destaca há anos no meio e teve uma série de encontros adaptados para livro, publicado pela editora Companhia das Letras. Com certeza a entrevista do professor Kabengele vai compor alguma obra futura, pois sua biografia, como já se revela nos primeiros minutos de conversa, é, em si mesma, um testemunho histórico: uma trajetória única, improvável ou, melhor dizendo, não fossem as forças de seus ancestrais, impossível.
Nascido em 1940, na aldeia de Bakwa-Kalonji, no então Congo Belga (que depois seria o Zaire e atualmente é a República Democrática do Congo), sua consciência crítica foi forjada no corpo a corpo com a colonização e a violência racial. Aluno de escolas coloniais católicas, graduou-se em antropologia social e cultural pela Universidade Oficial do Congo em 1969, tornando-se o primeiro antropólogo formado em seu país. Sua trajetória, contudo, foi brutalmente interrompida pela ditadura que matou o líder panafricano comunista Patrice Lumumba e perseguiu a família de Munanga.
Ao retornar a seu país, então denominado Zaire, para a pesquisa de campo, o professor foi perseguido politicamente e impedido de voltar à Bélgica, onde iniciava o doutorado. O que se desenhava como tragédia transmutou-se em destino. Convidado pelo professor Fernando Mourão, Munanga chegou ao Brasil em 1975 e terminou o doutorado na Universidade de São Paulo.
Na USP, concluiu sua tese “Os Basanga de Shaba“, sobre o grupo étnico do Zaire, e ingressou como o primeiro professor negro da história da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Foi diretor de museus e centros de estudos na universidade. Embora mais jovem, o professor Kabengele antecedeu até mesmo o professor Milton Santos –homenageado nesta coluna há duas semanas. Milton Santos foi um interlocutor de seu trabalho, assim como intelectuais nacionais e internacionais ao longo das últimas décadas.
Entre as inúmeras contribuições de sua vasta obra –um sem-número de livros, artigos, textos–, destaco o diagnóstico e o enfrentamento do mito da democracia racial no Brasil, algo que foi de grande importância para as gerações posteriores.
Como o próprio professor sintetiza em “As ambiguidades do Racismo à Brasileira”, o mito “proclamou no Brasil um paraíso racial, onde as relações entre brancos e negros, brancos e indígenas etc. são harmoniosas, isto é, sem preconceito e sem discriminação, a não ser de ordem socioeconômica, que atinge todos os brasileiros e não se baseia na cor da pele”. Sua crítica é a base que estrutura a disciplina que leciono neste semestre no MIT.
Homenageado com títulos de Doutor Honoris Causa por instituições como a UFRJ e a UFRB, e condecorado com a Ordem do Mérito Cultural, ano após ano o professor se consolida como uma lenda viva em terras brasileiras.
Deixo neste texto minhas homenagens e meu carinho para ele e para toda a sua família.
Viva o professor Kabengele Munanga!
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