Opinião – Djamila Ribeiro: Investigar tráfico sexual no caso Master é preciso

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Opinião – Djamila Ribeiro: Investigar tráfico sexual no caso Master é preciso


Conforme denunciado em primeira mão nesta coluna —e levado ao conhecimento de autoridades e organizações internacionais—, a realização de orgias que reuniram mulheres brasileiras e estrangeiras contratadas como garotas de programa, autoridades públicas brasileiras e convidados do banqueiro Daniel Vorcaro deve ser investigada pela Polícia Federal (PF) sob a perspectiva dos possíveis crimes de exploração sexual, tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, registros de imagens sexuais sem consentimento, entre outros.

Em outros textos, questionei como a delação premiada do banqueiro —assunto que rondou as capas dos jornais durante meses— pode ser silente sobre a organização dessas orgias, a identidade das mulheres, suas idades à época dos fatos, a forma do recrutamento, entre outras questões.

Desde o início, houve uma conveniente suposição de que orgias com garotas de programa estrangeiras pertenceriam à “vida privada” dos homens envolvidos. A despeito de divergências capitais entre a PF, o Ministério Público Federal (MPF) e o ministro relator do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação ao caso, nessa parte do tráfico sexual as instituições, por meio de seus homens representantes, parecem seguir em sintonia.

A deputada federal Tabata Amaral formalizou um pedido de investigação no MPF sobre as orgias e crimes sexuais. Todavia, até agora a instituição se manteve silente. As evidências, contudo, se multiplicam a cada semana e coube a parte da imprensa substituir o serviço da autoridade policial.

Nesse sentido, esta Folha tem feito um excelente trabalho de apuração para investigar essa questão a fundo. Entre os achados, está a descoberta de uma passagem de ônibus de Kiev, capital da Ucrânia, a Varsóvia, capital da Polônia, para uma das garotas de programa comparecer a uma das orgias.

Se os aspectos conhecidos desse caso são absurdos e ilegais, o tráfico de mulheres de países em situação de guerra infringe tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Ou seja, uma omissão das instituições de polícia, acusação e justiça no caso são passíveis de questionamento no Tribunal Penal Internacional, na Holanda, o que deve ser feito quando forem esgotadas as oportunidades de análise e ação.

Após um furo do portal Poder 360, escrevi sobre a necessidade de investigação sobre a organização do “clube do charuto” em Londres, onde mais de R$ 3 milhões de dinheiro provenientes de fundos de pensão de aposentados foram torrados em duas horas de “degustação” de uísque em um “clube de cavalheiros”.

Levei o fato à ciência de uma autoridade policial de Londres, na esperança de uma apuração junto ao hotel cinco estrelas The Peninsula, onde, de acordo com o portal Metrópoles, uma orgia com “suicinhas” teria ocorrido no quarto presidencial. Também entreguei relatórios sobre o caso para autoridades holandesas.

Já na última semana, vieram a público mais dois episódios.

Segundo reportagem da revista piauí, a casa noturna Madame Satã sediou uma festa que teria sido financiada por Daniel Vorcaro e produzida por um ex-ministro do governo Bolsonaro que, conforme indica a matéria, teria se tornado uma espécie de assessor especial do ex-banqueiro. Segundo a reportagem, celulares foram lacrados e DJs renomados na cena internacional foram contratados. E principalmente: havia quatro mulheres para cada homem e uma preferência explícita pelas mais “novas”.

Além disso, nas mensagens reveladas, chamou a atenção uma cobrança do que parece ser uma cafetina ao ex-banqueiro por supostos serviços sexuais de uma garota de programa a, possivelmente, um ministro do STF. O banqueiro teria acertado a conta no valor de R$ 10 mil, o que expõe uma necessária investigação. Afinal, desde que ela seja maior de idade, não é crime um funcionário público contratar uma garota de programa; todavia, se alguém paga por esse encontro, há uma hipótese de corrupção a ser apurada.

O bacanal do Satã, o Cine Trancoso e a degustação de Londres contam com o sigilo dos homens que participaram. Já as mulheres são tratadas como apêndices e objetos.

Se ainda não o fizeram, os responsáveis pela investigação têm o dever de quebrar o sigilo das pessoas que reuniram essas mulheres e ouvir as testemunhas que estavam nesses locais. Também deveriam ouvir os cantores, DJ’s e demais artistas contratados a peso de ouro para se apresentar nessas festas —muitos desses nomes foram revelados em matéria da revista piauí. Acredito que esses artistas têm a obrigação legal de contar o que e quem viram.

Caminho para investigar tem, mas o pacto da masculinidade segue firme, relegando as mulheres ao lugar de não humanidade.


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