Se as grandes barragens resolveram o problema das cheias fluviais catastróficas, o Recife enfrenta hoje um inimigo mais pulverizado
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A história do Recife é uma crônica de resistência anfíbia. Erguida sobre um delta, a capital pernambucana sempre viveu sob a batuta dos rios, mas foi a enchente de 1975 que forçou uma mudança radical na geografia urbana. Naquela década, sob o comando dos governadores Eraldo Gueiros e Moura Cavalcanti, o Estado iniciou a construção do que viria a ser chamado de “Cinturão de Ferro”: um sistema de contenção projetado para que a cidade nunca mais voltasse a ser um território submerso.
O projeto, executado pelo já extinto DNOS (Departamento Nacional de Obras de Saneamento), fundamentou-se em alguns pilares. O primeiro, a retificação do Rio Capibaribe, que eliminou meandros para acelerar o escoamento das águas para o Atlântico. O segundo, a criação de barragens estratégicas: Tapacurá, Carpina e Goitá. Esses colossos de engenharia funcionam como válvulas de escape, retendo o volume bruto das chuvas que descem do interior e do Agreste antes que alcancem a planície costeira.
Registre-se, contudo, que, se as grandes barragens resolveram o problema das cheias fluviais catastróficas, o Recife enfrenta hoje um inimigo mais pulverizado: as falhas na micro e na macrodrenagem. Enquanto o “Cinturão de Ferro” protege contra o transbordamento dos rios, a Prefeitura do Recife ainda carrega uma dívida histórica com a infraestrutura interna. A impermeabilização do solo e o sistema de galerias obsoleto fazem com que qualquer chuva moderada paralise a cidade.
Especialistas e órgãos como a APAC (Agência Pernambucana de Águas e Clima) apontam que, sem uma reestruturação profunda nos canais e bueiros — a chamada microdrenagem —, o Recife continuará refém dos alagamentos urbanos. A gestão municipal executa um programa chamado ProMorar, lastreado, em parte, com recursos de operação de crédito que relatei no Senado; mas o passivo de décadas de ocupação desordenada e de falta de manutenção nas bacias de drenagem ainda é uma conta aberta, paga pelo cidadão a cada inverno.
Por outro lado, é lamentável que o Recife ocupe a 83ª posição no Ranking do Saneamento 2025, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os 100 municípios mais populosos do país com base em dados de 2023. É grave que a capital pernambucana tenha caído oito posições em relação ao relatório anterior e figure entre os 20 piores municípios do Brasil na cobertura de coleta e tratamento de esgoto, segundo matéria publicada recentemente pelo Jornal do Commercio.
O cinturão de barragens foi a solução do século XX. A modernização da drenagem urbana e a melhoria do saneamento no Recife são urgências inadiáveis do século XXI. A memória é um ativo precioso que guarda as vivências passadas, mas também cobra providências e trabalho na grande tarefa que ainda precisa ser realizada.
Fernando Dueire – Senador da República por Pernambuco.

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