Foi quando seu pai o pescou do rio São Francisco, no interior mineiro, que Davi de Jesus do Nascimento nasceu como artista. Ao menos é o que diz sobre o que considera sua primeira obra —preso numa rede, ele se contorce como peixe em fotos feitas em um barco do pescador.
O contexto era mais libertador. Na época, Jesus do Nascimento exorcizava a perda da mãe, Eliane, e vinha de uma conversa difícil sobre sua identidade queer. “Era o fim de um ciclo e o início de outro”, afirma. “Nascia ali uma relação entre pai e filho pautada pela arte. Ele virou companheiro de projetos e minha família passou a compreender minha arte.”
Interrompida pelo luto, a pesca voltou à rotina pouco depois. Sejam jangadas com cicatrizes de madeira, sejam polaroides que resgatam sabedorias ancestrais, todos os trabalhos do artista foram, como ele diz, autorizados pelo rio. Em homenagem a Eliane, lavadeira que se especializou na vida ribeirinha, explica que nada acontece sem a devida permissão.
“Não consigo imaginar minha produção sem que esteja colada à natureza”, afirma Jesus do Nascimento, que abriu a instalação “Tororoma”, no Inhotim, em Minas Gerais, no último fim de semana. Inspirada em um conto de Guimarães Rosa, a obra reflete sobre as forças aquáticas.
“A natureza nasceu colada a mim e tudo em minha vida é definido pelo São Francisco. O rio dita meus ânimos e até onde posso mirar.” Não por acaso, o elo entre o homem e a natureza define suas esculturas, pinturas e performances, em que o tempo parece se sobrepor às capacidades humanas. Numa das obras mais marcantes, por exemplo, um véu branco paira sobre um barco, pendurado num anzol, e associa a morte ao fluxo hídrico.
Noutro desses “caixões-embarcações”, cascos de jangadas viram altares, com estatuetas de santos e ossadas de gado. Agora, no museu a céu aberto que completa 20 anos, Jesus do Nascimento inaugura um tipo de caverna, onde o chão de terra irregular, troncos retorcidos e espelhos d’água se impõem por todos os cantos.
Longe do frenético mundo digital, o ambiente escuro exige cautela daqueles que se candidatam a adentrá-lo. Mas há uma entidade para proteger os viajantes —numa poça, uma grande carranca vigia o terreno enquanto um fio de água escorre de sua boca.
Pela mistura de traços humanos e animalescos, a escultura era usada para afastar maus espíritos e se tornou um símbolo da cultura ribeirinha. O exemplar da vez foi desenvolvido por Mestre Expedito, um dos mais reconhecidos carranqueiros do Brasil, e reforça o tom surreal junto aos sons graves que ecoam ali dentro.
Numa das paredes, aliás, duas esculturas reúnem galhos diferentes que dão forma a corpos difíceis de se descrever. Jesus de Nascimento enquadra o seu “Sorvedouro”, série de pinturas em que embaralha bichos e homens com restos vegetais, entre as inspirações.
O título diz respeito a redemoinhos que se formam em rios e mares, capazes de sugar todos. “Muito disso vem também da energia de minha mãe, que se afogou em 2013. Em sonho, ela vem até mim e me mostra o semblante dessas criaturas”, explica Jesus do Nascimento.
“Elas vêm do mistério dessas profundezas, compostas por vestígios do rio, carrancas naufragadas e mesmo restos de pessoas que se afogaram.”
A metamorfose entre o homem e a natureza também se dá pela presença de escorpiões, comuns ao trabalho do artista. Em “Tororoma”, os aracnídeos que vieram da água, reproduzidos em resina, dominam um canto da instalação.
Já na galeria Mitre, em São Paulo, onde uma individual de Jesus do Nascimento permanece até maio, espécimes preservados infestam polaroides em que o artista aparece nu. Sobrepostas às fotos, garras e ferrões saltam de seu corpo como extensões físicas.
Entre intervenções como essa, a junção de conchas e documentos de família e ensaios em que se deita sobre enormes formações rochosas, ele explora a libertação do corpo à luz de mudanças provocadas pelo tempo. “Trabalho com coisas fadadas a se acabar. O mais bonito é ver que o trabalho sequer é finalizado, já que continua tendo uma vida própria.”
“Não tenho ideia de como estarão as raízes e as águas de ‘Tororoma’ daqui a um tempo. O Inhotim permite que as obras fiquem expostas por longos períodos e testemunhem diversas estações e estados emocionais.”
Semelhantes às de “Sorvedouro”, aquarelas da série “A Correnteza Zanza Silêncios” retratam pessoas que parecem se dissolver em água. O resultado sugere espectros que deixam rastros pelas telas e se confundem entre si.
Em meio a uma trajetória baseada em ressignificar objetos materiais, imagens como essas tentam mapear uma dimensão intangível. Afinal, certa vez a matéria não serviu para expurgar as dores de Jesus do Nascimento.
Em outubro, o artista lançou o livro de poemas “Aluvião”, em que investiga o luto pela morte da mãe e as curas que absorveu do São Francisco. O termo, na geologia, se refere ao acúmulo de sedimentos, e aqui evoca os traumas e lições que as águas trouxeram ao mineiro.
“Ela torou o segredo de nossas mortes e está viva em cada barco/ Ela é o rio/ Ela é o mar agridoce/ Ela é a esteira das frutas/ O quintal dela é minha língua/ O mel que escorre de meu olho é ela e o véu dos raios também”, escreve o autor na obra, que dedica a Eliane. Hoje, descreve a morte como natural a tudo que é passageiro.
Mesmo longe dos grandes circuitos —o artista vive em Pirapora, no interior de Minas Gerais, desde que nasceu—, Jesus do Nascimento já teve seus trabalhos expostos em museus como o Masp e galerias como a Almeida & Dale. Ele diz acreditar que as chances para artistas como ele têm se ampliado e defende que tudo pode ser artístico. “Uma comida, uma planta, uma conversa”, diz.
“Penso no meu trabalho como um ‘colecionismo de quintal’. Lembro de quando meu pai descamava peixes durante a noite —as escamas refletiam as estrelas, e o quintal parecia o céu invertido. A poesia não tem limite.”
O jornalista viajou à convite do Inhotim.


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