Suas linhas em grafite reluzem e parecem ganhar vida. Isso ocorre porque os desenhos são mergulhados pela artista num recipiente com cera de abelha líquida. Mas para que tal excentricidade? “Gosto de cozinhar”, é o que responde Sandra Vásquez de la Horra. Destaque da Bienal de Veneza de 2022, a chilena agora está em evidência na galeria Gomide&Co, com sua primeira mostra individual no país.
Por trás da sua trajetória global, está um material surpreendentemente simples —o papel. É sobre essa superfície, a princípio discreta, que ela constrói seu universo.
Quando a artista, nascida na cidade litorânea Viña del Mar, se mudou para a Alemanha, na metade dos anos 1990, virou discípula de Janis Kounellis, um dos grandes nomes da arte povera. “Ele me ensinou a fazer arte a partir da precariedade, usando materiais simples, do cotidiano, sem a ideia de que tudo precisa ser feito com materiais nobres ou durar para sempre”, afirma Vásquez de la Horra.
Além de Kounellis, há 25 anos, a chilena conheceu a xamã Lidia Rivalta Moré, que a aproximaria da “regla de ocha”, religião afro-cubana responsável por povoar os trabalhos da artista com orixás.
Na mostra paulistana, o encontro de culturas é tema de “El Reposo”, obra em que uma mulher branca se deita sobre uma negra. Para a artista, o trabalho também compreende a miscigenação dos povos latino-americanos.
“Muitas vezes certas origens são apagadas da história familiar. A parte indígena tende a ser silenciada. Meu trabalho é também sobre lembrar os nomes daqueles que foram esquecidos e curar essa árvore genealógica.”
Seu trabalho tensiona os limites entre natureza e cultura, muitas vezes destruindo a oposição entre esses conceitos. E a natureza é quase sempre ligada à feminilidade e à maternidade, com referências à alegoria da mãe terra.
Em “Retrato de un Hijo Pródigo”, isso se vê pela forma como a mulher é retratada. Uma mãe, com um cabelo que lembra uma grande concha e lágrimas em forma de rio, segurando seu filho.
As lágrimas reaparecem em outros rostos na exposição, como em “La Vulnerable”. Segundo a curadora Fernanda Morse, esse líquido vai além do sofrimento feminino, simbolizando, também, a limpeza. “São quase sempre riachos ou cachoeiras, que, de certa forma, limpam essas dores.”
A mostra também destaca a tridimensionalidade e os diferentes formatos com os quais Vásquez de la Horra tem trabalhado nos últimos tempos. O destaque são esculturas que transpõem a sua arte no formato de pequenas casas.
Para a artista, elas são como organismos vivos, que podem representar o cérebro, o corpo e a mente —além de retomarem os símbolos da maternidade, já que o corpo feminino é a primeira morada dos seres vivos.
“Muitos artistas acabam repetindo aquilo que funciona comercialmente. Tomei uma decisão consciente de não fazer isso. Para mim, a liberdade é mais importante”, diz.
Essa experimentação se beneficia do uso que a chilena faz da cera de abelha, já que ela confere maior plasticidade para os trabalhos, além de conservar a obra e dar maior brilho aos seus traços.
“A cera surgiu nesse contexto de investigação botânica e científica. É um material acessível e fascinante, que preserva e encapsula”, diz a artista, que ressalta a ligação entre corpo, a natureza e a espiritualidade em seu trabalho.
“São importantes os autores que construíram pontes entre o Oriente e o Ocidente e mostraram outras formas de compreender a consciência humana. Minha arte procura continuar a construir essas pontes”, ela diz.










