Vivemos numa sociedade paranoica. Evidente platitude essa afirmação. Nelson Rodrigues diria “óbvio ululante!”, mas a questão é: por quê? Nunca houve uma resposta tão fácil para uma questão tão complexa.
O tipo de paranoia que assola a sociedade em que vivemos advém da própria modernização tecnológica, produtora de conhecimento e informação em larga escala, e destruidora dos costumes.
Antes que alguém me acuse de ludista, não acho que antes era melhor. Nunca foi melhor. Nunca prestou. E nunca será melhor. Quem assim o nega, e “luta por um mundo melhor”, normalmente não passa de um vaidoso ou vítima da vaidade alheia.
Mas, evidentemente, há males hoje que não existiam “antes das máquinas”, como, aparentemente, pensava Ned Ludd quando, supostamente, quebrou teares no final do século 18 na Inglaterra e virou símbolo dos chamados ludistas, que décadas depois transformaram este gesto num protesto contra a revolução industrial. A moda hoje é dizer que quem teme a IA é um neoludista. As modas do pensamento são como um fungo que se espalha pelo mundo, assim como a banalidade do mal.
O temor de Ned Ludd, como símbolo de um olhar sobre a modernização industrial, pode ser visto tanto como uma crítica social e política ao futuro esmagamento do trabalhador pelo capital industrial, como também pode ser visto como um gesto romântico de nostalgia de um mundo ainda não devastado pela lógica furiosa do sucesso material, do “achievement” –realização, desempenho–, do dinheiro, do crescimento desenfreado do progresso.
Mas antibióticos, IA, mundo digital, aviões, longevidade, medicina científica, saneamento costumam ser argumentos poderosos contra essa nostalgia romântica. Ainda que apenas almas pouco dialéticas possam negar as profundas contradições que o “progresso moderno” causou no mundo, tanto no meio ambiente exterior, quanto no meio ambiente interior. A paranoia como vínculo social é uma delas.
Não que não existisse causa para eventos paranoides antes, mas hoje a paranoia se tornou um paradigma vital, uma epidemia sistêmica que piora profundamente o convívio entre as pessoas.
Como já afirmava anos atrás o sociólogo Frank Furedi, a parentalidade no século 21 promete ser cada vez mais paranoica. A sensação de risco é tal que as crianças não podem mais ir dormir na casa dos coleguinhas por receio de abusos sexuais. Trabalhadores da educação infantil logo merecerão adicional de insalubridade por riscos de ameaça jurídica.
Apesar de todo o discurso fofo ao redor da educação, com cursos de formação dos educadores para deixar as crianças cada vez mais reprimidas nos seus gestos, o que se observa é uma atmosfera de crescente sensação de ameaça.
A parentalidade paranoica não para aí. Quanto mais especialistas em parentalidade “ensinam” aos pais como serem pais e mães, mais se cava um abismo na habilidade espontânea da lida com os pequenos. De novo, apesar dos discursos fofos sobre emoções e combates a preconceitos e defesa da espontaneidade, cada vez mais se anula a capacidade dos pais em nome das novas “ciências” dos especialistas.
E muitos desses trabalham com teorias que alimentam a paranoia. Muitos dos gestos herdados na prática da parentalidade —palavra da moda— são considerados heranças traumáticas a serem superadas por essas novas “ciências” dos especialistas.
Não estranhemos o fato de que a simples reprodução humana se tornou mau negócio sob inúmeros pontos de vista. Quando substituímos de modo sistêmico gestos por métodos, rompe-se necessariamente a cadeia de transmissão de experiências. Mas, aqui está um dos núcleos da atitude moderna: tudo que não se realiza dentro do modo considerado moderno é antiquado e “tóxico”.
Mas um dos centros da geração da sociedade paranoica é, sem dúvida, a rede de informação imediata que se produziu. Um fato curioso é que quanto mais os especialistas apontam para o risco das telas na vida das crianças e adolescentes, mais os pais se põem a construir um cotidiano paranoico de controle.
Chama a atenção o fato de que, apesar dos danos que todo convívio paranoide causa, chegamos ao ponto de que se constitui de fato num procedimento necessário a adoção de medidas paranoicas na lida com o cotidiano que envolve as crianças. Como não ser exaustivo?
Parece, sim, ser danoso um mundo atravessado pelas “máquinas de informação”. A indústria do conhecimento acessível na velocidade digital e da IA deverá, cada vez mais, produzir humanos paranoicos e desesperados. Mas há que se lembrar que a paranoia já é uma commodity social e política.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.











