A maior coleção de arte popular do Brasil está prestes a ficar ainda maior no seu aniversário de cinquenta anos. Nesta sexta (28), o carioca Museu do Pontal oficializa o recebimento de mais de 700 novas obras ao seu catálogo —doadas tanto por artistas e colecionadores privados quanto por outras instituições, como o extinto Museu de Arte Naïf, o MIAN, e o Instituto Moreira Salles.
Os itens se somam às mais de 10 mil peças atualmente no acervo da instituição. E o evento da sexta, fechado para convidados, antecede um fim de semana de celebrações junto ao público, que incluem um show de Lia de Itamaracá e a abertura de uma grande exposição do artista Véio.
As doações fazem parte de um esforço do museu para renovar a sua coleção original, idealizada pelo francês Jacques van de Beuque. Diretores do local, Lucas van de Beuque e Ângela Mascelani —neto e nora de Jacques, respectivamente—, contam que o acervo inicial era formado basicamente por esculturas. Nos últimos anos, porém, eles vêm buscando variar os suportes do conjunto, adicionando a ele pinturas e gravuras.
Além disso, eles seguem prospectando ativamente peças por todo o país, quando não as comissionando. Afinal, explica Mascelani, o tipo de produção com que o museu lida reflete diretamente as vivências de seus criadores. Adquirir e estudar esses itens é uma forma de documentar a realidade brasileira de ontem e de hoje em toda a sua diversidade. “Por isso não podemos parar de colecionar”, justifica.
Os diretores preferem não usar o termo “arte popular” para designar essas peças, no entanto. “A definição do nosso recorte curatorial é que o artista tem que ter origem popular”, em uma classe baixa, diz Lucas van de Beuque. “É um conceito sociológico, não estético”, complementa Mascelani.
O Museu do Pontal vive uma ótima fase. Desde que se mudou para a Barra da Tijuca, cinco anos atrás, já realizou 23 exposições, as quais receberam cerca de 400 mil visitantes no total. Promoveu 17 festivais como o que anima este fim de semana, consolidando-se como um espaço de lazer entre as famílias da região. E vem ganhando cada vez mais reconhecimento dentro e fora do Brasil —na semana que vem, seus diretores embarcam para Pequim para inaugurar uma versão de uma panorâmica de J. Borges exposta no espaço de 2024 a 2025.
O bom momento sucede, porém, um período de dificuldades. A instituição só mudou de endereço porque a sua sede original, uma antiga residência no Recreio dos Bandeirantes, começou a sofrer inundações recorrentes após a construção de um megacondomínio nos fundos de seu terreno em meio aos preparativos para Olimpíadas de 2016.
Como a região era alagadiça, o condomínio foi erguido sobre um aterro. Mas isso criou um desnível que fazia o museu receber toda a água da chuva que escoava dali.
A prefeitura carioca reconheceu sua contribuição para o ocorrido e cedeu à instituição o seu atual terreno na Barra. Meses após iniciadas as obras, no entanto, a empreiteira responsável pela construção pediu recuperação judicial. As obras seguiram, assim, paradas até 2020, quando o próprio Museu do Pontal apelou para um financiamento coletivo para retomá-las.
Mascelani afirma que o espaço segue convivendo com a instabilidade financeira. “Todos os anos começam com o orçamento zerado”, diz ela. “É claro que, quando uma instituição faz cinquenta anos, tudo aponta para a sua permanência. Mas há também há uma luta constante por recursos que poderia ser apaziguada.”
O cinquentenário do museu também coincide com um momento de grande valorização da arte popular. Até uma ou duas décadas atrás, era comum chamá-la de “arte naïf” (“ingênua”, em francês), uma referência pejorativa à falta de treinamento acadêmico de seus criadores, quando não rebaixá-la a artesanato.
Hoje, por outro lado, ela costuma ser exibida em pé de igualdade com obras consideradas canônicas em instituições respeitadas mundo afora, resultado da pressão dos movimentos decoloniais pelo reconhecimento do valor artístico de uma produção que não segue os padrões estéticos europeus.
Um artista diretamente atingido por essa virada foi o sergipano Cícero Alves dos Santos, o Véio, que inaugura a maior retrospectiva de sua carreira no Museu de Pontal neste fim de semana, com mais de 300 peças.
O nordestino ganhou projeção internacional em 2015, quando a grife italiana Marni apresentou uma individual dele em Veneza em paralelo à Bienal da cidade. Antes, em 2012, ele já tinha participado de uma coletiva na Fundação Cartier, em Paris, em cujo acervo hoje está presente.
Véio conta que nunca ligou muito para a classificação do seu trabalho como arte popular ou erudita. “Eu nunca tive problema de criar. Para mim, a arte cabe em todos os cantos”, diz.
Destaques da programação
Sábado (29)
15h Zé Bezerra e Trio Pernambucano
18h Siba
19h30 Edmilson dos Teclados
20h15 Lia de Itamaracá e o Quarteto da Ciranda
Domingo (30)
15h30 Mestre Solano e Noites do Norte
17h Aturiá
18h30 Trio Forrozão












