Infância diante da tela: quem cuida das crianças enquanto elas estão conectadas?

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Infância diante da tela: quem cuida das crianças enquanto elas estão conectadas?


Bate-papo no REC’n’Play Saúde mostrou que mais do que discutir horas de celular, vale perguntar o que crianças deixam de viver quando conectadas


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Tenho um filho de 12 anos. E talvez por isso a pergunta que deu título ao bate-papo que mediei, nesta quinta-feira (27), tenha me atravessado de uma maneira especialmente particular: como a tecnologia está influenciando as gerações futuras? Essa e outras perguntas permearam a conversa, durante o REC’n’Play Capítulo Saúde, com o pediatra e ativista pela infância Daniel Becker. 

Há mais de quatro décadas, ele olha para a infância não apenas como pediatra, mas como alguém que defende que cuidar das crianças é uma responsabilidade de toda a sociedade. 

Respostas sobre tecnologia e gerações futuras parecem, à primeira vista, caber numa discussão sobre tempo de tela. Quantas horas? A partir de que idade? Celular pode ou não pode? Tablet na escola ajuda ou atrapalha?

Mas a conversa com Daniel Becker rapidamente mostrou que a questão é muito maior, pois não estamos falando apenas de aparelhos, e sim de vínculo, atenção, saúde mental, escola, família, alimentação, natureza, espaço urbano, desigualdade e do próprio direito de brincar.

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Não é só sobre a tela

Uma das provocações mais fortes de Daniel Becker foi justamente tirar o foco da contagem de horas. Uma criança diante de uma tela pode estar deixando de correr, conversar, se frustrar, inventar uma brincadeira, negociar uma regra com outra criança, observar a natureza, esperar, ficar entediada. 

É claro que tecnologia também pode ensinar, conectar, ampliar repertórios e oferecer acesso a informação. O problema aparece quando ela começa a ocupar o espaço de experiências que são fundamentais para o desenvolvimento.

O mundo digital oferece estímulos rápidos, recompensas imediatas e uma possibilidade permanente de trocar de atividade quando algo deixa de interessar. A vida real, por sua vez, é cheia de espera, frustração, negociação e limites. E uma criança precisa aprender a lidar com tudo isso.

Durante o nosso bate-papo, Daniel Becker mostrou que, ao brincar, a criança descobre como resolver um conflito sem chamar um adulto para cada problema. “É na convivência que aprende a perder, ganhar, esperar a vez, criar regras e perceber o sentimento do outro. É no contato com o mundo físico que desenvolve corpo, autonomia e percepção de risco”, destacou.  


JAILTON JR./JC IMAGEM

Uma das provocações mais fortes de Daniel Becker foi justamente tirar o foco da contagem de horas. Uma criança diante de uma tela pode estar deixando de correr, conversar, se frustrar, inventar uma brincadeira, negociar uma regra com outra criança, observar a natureza, esperar, ficar entediada – JAILTON JR./JC IMAGEM

Quando o problema parece ser da família, mas não é

Existe outro ponto que me parece essencial nessa discussão: a facilidade com que colocamos toda a responsabilidade sobre os pais. “É só estabelecer limites”, “É só tirar o celular”, “É só oferecer outras atividades”. 

Mas quem cuida de crianças sabe que não é tão simples. Famílias estão exaustas, adultos trabalham muito, enfrentam longos deslocamentos, levam tarefas para casa e também vivem conectados. Muitas vezes, o mesmo pai ou mãe que tenta convencer o filho a largar o celular responde mensagens de trabalho durante o jantar.

Daniel fez uma imagem que ficou comigo: o celular pode se transformar numa barreira entre o olhar do adulto e o olhar da criança. É uma imagem poderosa porque fala de algo que acontece antes mesmo de discutirmos o celular da criança. Que exemplo estamos dando? Quanto tempo de presença real estamos conseguindo oferecer?

A infância não vem com um manual, costumamos dizer. A resposta de Daniel foi bonita e incômoda: o manual está nos olhos da criança. Só conseguimos ler esses olhos se estivermos olhando para eles.

A escola não pode entrar nessa conversa sozinha

A tecnologia também chegou às salas de aula, e esse é um debate que precisa fugir tanto do entusiasmo ingênuo quanto da rejeição automática. Ferramentas digitais podem ter enorme potencial educacional. Mas aparelho não é sinônimo de aprendizagem.

Um ambiente com estímulos constantes pode dificultar a concentração, e o próprio desenho de muitas plataformas digitais é feito para capturar e prolongar a atenção. Por isso, é legítimo questionarmos se estamos usando a tecnologia para melhorar a educação ou simplesmente, na escola, há ferramentas que disputam a atenção das crianças. 

A resposta não deveria ser deixada apenas para professores. Família e escola precisam construir juntas regras, expectativas e uma educação para o uso crítico da tecnologia. E isso inclui conversar sobre redes sociais, exposição, publicidade, desinformação, pornografia, violência digital, algoritmos e inteligência artificial.

Nesse sentido, vale ressaltar que a criança não precisa apenas aprender a usar tecnologia, e sim deve aprender a não ser usada por ela. 


JAILTON JR./JC IMAGEM

Debate também destacou que a criança não precisa apenas aprender a usar tecnologia, mas também deve aprender a não ser usada por ela – JAILTON JR./JC IMAGEM

O direito de brincar também é uma questão de saúde

Sem dúvidas, uma das partes mais importantes da conversa com Daniel tenha sido lembrar que brincar não é um intervalo entre atividades importantes. Brincar é uma atividade importante, especialmente de forma livre, sem a supervisão permanente de adultos. Segundo o pediatra, isso permite que crianças desenvolvam competências que nenhum aplicativo consegue reproduzir integralmente: negociação, criatividade, autonomia, cooperação, tolerância à frustração e resolução de conflitos.

Existe um ponto fundamental aqui: enquanto nos preocupamos em proteger as crianças de todos os riscos, podemos estar retirando delas experiências necessárias para aprender a lidar com riscos.

E isso não significa defender abandono ou falta de cuidado, e sim compreender a diferença entre risco e perigo, como mostrou Daniel. Uma criança subir, correr, cair, experimentar e tentar novamente pode fazer parte de um desenvolvimento saudável. O perigo é aquilo que não deveria estar ali.

O problema é que muitas cidades brasileiras não oferecem nem mesmo o básico: calçadas seguras, praças cuidadas, áreas verdes, equipamentos públicos e espaços onde uma criança possa brincar. Por isso, defender o brincar também é discutir urbanismo e política pública.

Ao final, fiquei pensando que talvez a pergunta mais injusta seja: “Como os pais devem controlar os filhos?” A pergunta deveria ser maior: “Que sociedade estamos construindo para que as crianças possam crescer bem?”. É claro que famílias precisam estabelecer limites, que adultos precisam estar presentes, que crianças precisam aprender a usar tecnologia com responsabilidade.

Talvez o maior desafio não seja tirar a tecnologia da infância. Isso seria, além de improvável, pouco desejável. O desafio é impedir que ela ocupe todos os espaços da infância e que não substitua aquilo que só a experiência humana é capaz de oferecer: vínculo, presença, afeto, descoberta, corpo em movimento e brincadeira.

Por mais sofisticadas que sejam as tecnologias que ainda vamos criar, nenhuma inovação deveria nos fazer esquecer uma coisa muito antiga e essencial: criança precisa de gente.






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