Com mais de duas décadas de existência, a mostra CineOP, em Ouro Preto, se distingue dos demais festivais brasileiros pelo olhar para a história e a preservação. Seus filmes e debates põem em evidência a memória do cinema.
E quando quase não existem mais arquivos audiovisuais que retratam o recorte do passado que se busca? É o caso de “Os Irmãos Segreto”, documentário exibido na mostra mineira na noite de domingo, dia 28.
O filme dirigido pelos italianos Michele Manzolini e Federico Ferrone lembra a saga dos irmãos Gaetano, Pasquale e Alfonso Segreto, que estão entre os pioneiros do cinema no Brasil.
Nasceram em uma família pobre no vilarejo de San Martino de Cilento, na região de Campânia, no sul da Itália. Em 1883, os adolescentes Gaetano e Pasquale embarcaram para o Brasil –Alfonso ficou, tinha apenas 5 anos.
No Rio de Janeiro, os dois irmãos se arriscaram nas mais diversas formas de entretenimento que pudessem ser rentáveis. Envolveram-se até com jogos ilegais e foram detidos algumas vezes pela polícia carioca.
Em 1897, Pasquale e José Roberto Cunha Salles abriram o Salão de Novidades Paris, a primeira sala com um cinematógrafo e programação contínua de filmes. Foi um sucesso.
A essa altura, Alfonso já havia se juntado aos irmãos. Foi ele quem comprou equipamentos de filmagem e aprendeu a usá-los. Em junho de 1898, ao voltar de uma viagem a bordo do navio francês Brésil, ele filmou a entrada da Baía de Guanabara.
Por décadas, esse registro –nunca exibido– foi considerado a primeira filmagem feita no país, hipótese descartada por estudos recentes. São de 1897, um ano antes, os registros iniciais, apontam os pesquisadores.
De qualquer modo, os irmãos Segreto têm papel fundamental neste período de nascimento do cinema brasileiro, tanto na produção quanto na exibição. No entanto, de tudo o que Alfonso filmou, restaram apenas alguns segundos de “A Despedida do 19º Batalhão Rio Branco”, rodado em 1910 em Curitiba.
A ausência de mais registros se tornou, então, o maior desafio imposto aos cineastas italianos Manzolini e Ferrone para viabilizar o documentário. Além deles, pesquisadores do Brasil e da Itália vasculharam arquivos mundo afora em busca de outros filmes com a marca Segreto. Nada.
A saída foi, então, recorrer a imagens do Rio de mais de um século atrás para lembrar a trajetória dos três irmãos. Os arquivos da Cinemateca do MAM carioca foram fundamentais. Além disso, usaram registros da Cinemateca Brasileira, sediada em São Paulo; da produtora francesa Pathé; do British Film Institute (BFI), uma fundação britânica; e do estúdio americano Fox.
Além desses arquivos, os diretores mostram como estão hoje alguns dos locais por onde os irmãos Segreto passaram. Foi um trabalho de quatro anos e meio, conta Ferrone.
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Diante de tão pouco que sobreviveu de décadas de filmagens feitas por Alfonso Segreto, é inevitável que lembremos o habitual desdém dos brasileiros em relação à memória. Neste caso em particular, não é bem assim, pondera o diretor.
“Esse não é um problema só do Brasil. Naquela época [final do século 19 e primeiras décadas do século 20], o cinema não era visto como uma forma de arte, era apenas diversão. E todo o material era descartado”, afirma Ferrone.
A primeira instituição dedicada à preservação da memória audiovisual no país é a Cinemateca Brasileira, aberta em 1949. Curiosamente é o mesmo ano em que a Cinemateca Nacional foi fundada na Itália.
Tanto trabalho dessa equipe resultou em ao menos uma descoberta, segundo Ferrone. Depois de anos agitados no Brasil, Alfonso Segreto voltou para sua região no sul da Itália, onde teve uma vida bem mais sossegada, longe do cinema. Seu corpo foi sepultado no vilarejo onde nasceu.
Também tranquilo é o andamento de “Os Irmãos Segreto”, narrado pelo ator Paulo Betti. Com esse ritmo e imagens preciosas de mais de um século atrás, o documentário nos leva para dentro da Belle Époque carioca.
Depois de percorrer festivais, o filme deve entrar em cartaz em outubro ou novembro deste ano, segundo Ferrone.
‘Uma porrada’
Horas antes da exibição do documentário, o Cine-Museu da Inconfidência apresentou a cópia restaurada de “Um Céu de Estrelas”, filme dirigido por Tata Amaral e lançado em 1996.
“Uma porrada!”, disse uma jovem ao fim da sessão. Se “Os Irmãos Segreto” é um exercício de memória em tom contemplativo, o premiado longa de ficção cresce movido pela tensão.
A cabeleireira Dalva, interpretada por Leona Cavalli, prepara-se para uma viagem para Miami, onde vai buscar outra vida. Neste momento, chega a sua casa o ex-noivo Vitor, papel de Paulo Vespúcio Garcia, e tudo sai do controle.
O roteiro foi escrito por Jean-Claude Bernardet e Roberto Moreira, com base no romance de Fernando Bonassi.
Um dos grandes filmes brasileiros da década de 1990, “Um Céu de Estrelas” foi muito comentado àquela altura como um reflexo da crise resultante dos anos Collor. Neste retorno, a violência contra a mulher tende a ocupar o centro dos debates.
O objetivo de Tata e da equipe do filme é que a nova cópia entre em cartaz ainda no segundo semestre deste ano.
O jornalista viajou a convite da CineOP














