O que tem em comum a cantora Carmen Miranda e Gilda de Abreu, que dirigiu o filme “O Ébrio” oito décadas atrás? E Chica da Silva, a ex-escravizada de Diamantina, e Helena Solberg, a primeira cineasta a levar o feminismo a tema central de uma produção brasileira?
Essas quatro e outras mulheres, de diferentes épocas e origens, serão lembradas na 21ª edição da CineOP, a Mostra de Cinema de Ouro Preto, que começa nesta quinta, dia 25.
Ao longo de seis dias, o evento vai exibir 135 filmes divididos em três frentes: história, preservação e educação.
No ano passado, a CineOP exaltou as mulheres dedicadas à comédia, fossem diretoras ou atrizes. Desta vez, o tributo outra vez se destina a elas, mas sob um ângulo diferente. Na Mostra Histórica, uma das seções do festival, o mote é Como Elas Começaram? Memórias do Primeiro Filme.
Faz todo o sentido, portanto, que Ouro Preto ressalte a produção da carioca Helena Solberg. Ao completar seis décadas, seu filme de estreia, o curta-metragem “A Entrevista”, estará na abertura da CineOP, ao lado de “Meio Dia”, lançado pela diretora em 1970.
Com um olhar surpreendente para a época em relação a temas como casamento e sexo, “A Entrevista” entrou na mais recente lista da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) como um dos cem filmes essenciais da história do cinema do país.
Aos 88 anos, Solberg vai participar da abertura e de outras atividades do festival, que exibe alguns dos seus outros filmes, como o documentário “Carmen Miranda: Bananas Is My Business”, de 1995.
“Helena estava muito à frente do seu tempo e praticamente inaugurou a discussão sobre a questão feminina no cinema brasileiro”, diz Raquel Hallak, diretora da Universo Produção, que organiza a CineOP.
Ainda na Mostra Histórica, o festival vai apresentar produções como “Feminino Plural”, longa de 1976 de Vera de Figueiredo; “Mar de Rosas”, lançado no ano seguinte por Ana Carolina; “Que Bom Te Ver Viva”, filme de 1989 de Lucia Murat; e “Um Céu de Estrelas”, longa de 1996 de Tata Amaral.
Em outra frente da CineOP, a Mostra Preservação, não existe um enfoque específico no universo feminino, mas elas estão presentes em dois filmes recém-restaurados: atrás das câmeras, com “O Ébrio”, melodrama de grande sucesso dirigido por Gilda de Abreu e lançado em 1946; e em papel de protagonismo, caso de “Xica da Silva”, filme de 1976 de Cacá Diegues, com Zezé Motta em um dos seus papéis inesquecíveis.
Ainda nesta seção do festival, dois outros filmes merecem atenção. Realizado pelo gaúcho Salomão Scliar em 1949, “Vento Norte” é considerado o primeiro longa de ficção sonoro realizado na região sul do país.
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A busca pelo passado vai ainda mais longe em “Os Irmãos Segreto”, a respeito de Paschoal, Gaetano e Alfonso Segreto, que deixaram Nápoles no final do século 19 para se tornar, no Rio de Janeiro, pioneiros do cinema brasileiro. O documentário é dirigido pelos italianos Michele Manzolini e Frederico Ferrone.
“Quando a CineOP começou, em 2006, a preservação era um patinho feio. Projetos de restauro daquela época, como os dos filmes de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Rogério Sganzerla, só aconteciam porque os herdeiros desses cineastas tinham tomado consciência da importância da preservação. E esse trabalho era feito no exterior, não havia essa indústria por aqui”, lembra Hallak.
Segundo ela, o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que integra a CineOP desde a primeira edição, tem sido decisivo para o avanço do setor nessas duas décadas.
São reuniões com pesquisadores, educadores e gestores culturais, que elaboram propostas com potencial para influenciar políticas públicas para a preservação dos filmes.
Neste ano em Ouro Preto, com três espaços de exibição, acontece pela segunda vez a mostra competitiva Arquivos em Questão, com filmes que recorrem a imagens de arquivo para buscar novos caminhos de linguagem. Entre eles, dois ligam o cinema à música: “Apocalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar, e “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, de Dácio Pinheiro.














