‘Minotaur’, em Cannes, usa Putin e a guerra na Ucrânia para debater masculinidade

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‘Minotaur’, em Cannes, usa Putin e a guerra na Ucrânia para debater masculinidade


Em um cenário geopolítico tão conturbado quanto o atual, era de se esperar que alguns filmes na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes fossem retratar a guerra. A tarefa sobrou para ao russo Andrei Zviaguinstev, com “Minotaur”.

Diferente de outros de seus concorrentes, como Pawel Pawlikowski com “Fatherland” e László Nemes com “Moulin”, Zviaguinstev não desenvolveu uma história sobre um conflito terminado e analisado há décadas, como a Segunda Guerra, e preferiu se arriscar a decupar uma guerra em andamento hoje. No caso, a da Ucrânia, país invadido pela Rússia em 2022.

O conflito não é o eixo central do filme, mas é um pano de fundo constante, que emerge para a superfície com frequência. A história acompanha o cotidiano da família de Gleb, um empresário rico numa cidadezinha provinciana da Rússia.

Taciturno, Gleb não fala muito. O relacionamento com a esposa é frio e distante, e ele desconfia que ela tenha um amante. Ela está o tempo todo mandando mensagens pelo celular e não vai às consultas médicas ou outros compromissos que diz ter.

Quando Gleb descobre quem é o homem, não demora para que seu orgulho ferido e macheza se transformem em violência.

A transmutação em tela é acompanhada por símbolos que passam diante dos olhos de Gleb, como, por exemplo, tanques blindados sendo transportados em um trem enquanto ele espera, dentro do carro, para passar sobre os trilhos. Ou, ainda, as múltiplas propagandas militares em “outdoors” gigantes pelas ruas.

No meio de seu drama pessoal, Gleb também é pressionado no trabalho pelo governo. Ele precisa escolher 15 funcionários para se juntarem ao exército. Ele se irrita com a ordem, mais por medo de perder bons profissionais. Gleb parece ser um homem socializado desde cedo para não perder tempo com empatia ou qualquer emoção que seja.

Quando seu filho diz que outro garoto está pegando no pé dele no colégio, Gleb ensina como o menino deve agir. É preciso agarrar o outro pelo colarinho e, agressivo, dizer que da próxima vez ele vai esmagá-lo.

Gleb também não considera muito as reclamações da mulher, que antes de trair tenta comunicar múltiplas vezes as suas insatisfações, sem muito sucesso. Até porque, além do conselho bruto ao filho, Gleb não é muito atuante na vida doméstica.

“Minotaur”, afinal, parece querer fazer um retrato do homem russo, à imagem e semelhança de Vladimir Putin.



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