Se a bancada parlamentar de Pernambuco não estiver disposta a se unir em prol dos grandes desafios estaduais, é só avisar e se resolve em outubro.
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Pernambuco assiste a um fenômeno político intrigante na atual legislatura federal. O estado ostenta uma bancada federal robusta na Câmara dos Deputados, com 25 representantes que somam milhões de votos válidos e controlam nacos generosos do Orçamento Geral da União.
No papel, o peso político é inegável. Na prática e nas grandes votações que definem o futuro do desenvolvimento regional, o que se testemunha é uma gritante falta de protagonismo. O parlamentar pernambucano parece ter trocado a grande articulação nacional, aquela que historicamente colocava o estado na vanguarda do país, pela comodidade de carregar dinheiro de emendas por aí.
Tornaram-se gestores eficientes de verbas carimbadas para suas bases eleitorais, e nisso são um sucesso, mas coadjuvantes apáticos nos debates estruturais que travam a economia. A bancada quase não aparece mais.
Vazio
O volume de recursos movimentado pelos parlamentares pernambucanos nos últimos quatro anos atingiu cifras impressionantes. Entre 25 deputados federais e os três senadores da República, o poder público empenha e libera anualmente montantes que superam a barreira de um bilhão de reais. Há nomes na bancada que figuram no topo dos rankings nacionais de liberação de verbas. O dinheiro chega como nunca. Essas verbas irrigam municípios com asfalto, praças e ambulâncias, garantindo a sobrevivência eleitoral e o capital político nas bases tradicionais. Se o estado não tivesse problemas maiores, seria perfeito.
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Mas essa inundação de recursos bilionários contrasta violentamente com o vazio de liderança quando o assunto exige enfrentamento técnico e união suprapartidária em Brasília. A bancada se fragmentou em feudos individuais, cada um com seu caminhãozinho de dinheiro, preocupado apenas com a próxima eleição.
Estruturantes
A gravidade desse apagão de liderança se revela nos impasses que se arrastam há anos sem uma solução definitiva. O exemplo mais gritante é a Ferrovia Transnordestina. Enquanto o Ceará articulou e garantiu o avanço dos trilhos em direção ao Porto de Pecém, o trecho pernambucano rumo ao Porto de Suape permaneceu anos relegado ao segundo plano, refém de promessas vagas e indefinições orçamentárias. Falta à bancada a força política necessária para emparedar o Ministério dos Transportes e exigir cronogramas claros. Quem fez esse papel, nos últimos dias, foi a governadora Raquel Lyra (PSD). Se dependesse da bancada federal, sabe-se lá o que teria acontecido.
O mesmo cenário de letargia se repete na crise habitacional e no déficit crônico de saneamento básico que castiga as principais cidades da Região Metropolitana e o interior. Os deputados federais assistem ao avanço tímido dos programas federais sem conseguir liderar um plano de metas agressivo que retire Pernambuco das estatísticas incômodas de falta de infraestrutura e precariedade urbana. Faltam bandeiras coletivas para a bancada.
Omissão
O episódio recente da chamada “taxa das blusinhas” expôs de forma didática esse desalinhamento. A isenção fiscal concedida a plataformas internacionais de comércio eletrônico representou um duro golpe na competitividade do Polo de Confecções do Agreste, que gera centenas de milhares de empregos em municípios como Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru.
No momento em que a indústria têxtil pernambucana mais precisava de uma trincheira intransigente no Congresso para conter a concorrência desleal, parte expressiva dos parlamentares preferiu se esquivar do debate para não se indispor com as narrativas de redes sociais se forem de oposição ou com as conveniências eleitorais do Palácio do Planalto.
A preservação dos postos de trabalho locais foi secundarizada por um jogo de conveniências políticas que evitou o enfrentamento direto da matéria. As exceções ficaram por conta de dois parlamentares que ao menos apresentaram emendas à MP do “incentivo chinês” assinada por Lula: Mendonça Filho (PL) e Eduardo da Fonte (PP). Foram dois, de 25 deputados e três senadores.
Urgência
O estado perde espaço de liderança no Nordeste para vizinhos que operam com maior coesão política. O histórico de Pernambuco na formulação de políticas nacionais e na defesa do pacto federativo foi substituído por uma postura reativa. Os deputados e senadores reagem aos acontecimentos em vez de ditar a agenda.
Com todo o respeito que os parlamentares merecem, é preciso que haja uma decisão deles. Se não estiverem dispostos a trabalhar por Pernambuco para além do ofício de carregar emendas de canto a canto, basta que avisem. Outubro é a época certa para resolver isso.












