Pioneira no frevo feminino, Lourdinha fará história ao comandar, pela 1ª vez com uma formação exclusivamente feminina, o cortejo do Eu Acho É Pouco
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Criadora da Orquestra Só Mulheres, que completa 20 anos em 2026, Lourdinha Nóbrega é pioneira no comando de orquestras de frevo formadas exclusivamente por mulheres. Sua trajetória é marcada pela luta por espaço em um universo historicamente masculino e pela defesa do frevo como patrimônio cultural vivo.
No Carnaval de 2026, a orquestra de Lourdinha fará história ao comandar, pela primeira vez com uma formação exclusivamente feminina, o cortejo do bloco Eu Acho É Pouco, em Olinda.
A Orquestra Só Mulheres também puxa o tradicional Bacalhau do Batata pelo segundo ano consecutivo. “A gente chega, o povo gosta e quer repetir a dose”, conta Lourdinha, com um sorriso de orelha a orelha.
Maestros do Frevo #06: Lourdinha Nóbrega e a luta das mulheres por igualdade nas orquestras
Da banda marcial às ladeiras de Olinda
A relação de Lourdinha com a música começou cedo, tendo o pai boêmio e os irmãos músicos como referências. “A música já corre nas minhas veias.” Mas a iniciação prática aconteceu quando ela ingressou em uma banda marcial.
Até encontrar o instrumento que seria seu companheiro na música, a jovem teve uma longa trajetória, passando por todos os instrumentos típicos da banda. “Fui para os instrumentos de sopro. Não me adaptei aos instrumentos de metal. Ainda fui para o clarinete, até chegar ao saxofone.”
O encontro com o saxofone foi quando “realmente começou a minha trajetória no frevo”. O primeiro Carnaval veio aos 13 anos, nas ladeiras de Olinda. Desde então, passou por orquestras tradicionais, como a do maestro Isaac Leandro, a Orquestra Popular do Recife e a Orquestra Pernambucana de Frevo.
Também integrou projetos fora do frevo, como a banda Comadre Fulozinha, experiência que considera fundamental. “Foi a minha escola. Aprendi muito de gestão feminina no cenário musical.”
Uma orquestra feminina
A inquietação com a desigualdade de gênero na música surgiu ainda na juventude. “Eu comecei na música com 9 anos de idade. Mas era um universo bem masculino”, relembra.
Quando era estudante do Centro de Atividades Musicais, Lourdinha criou o Quarteto Pérola Negra, formado apenas por mulheres. Mais tarde, integrou a Filarmônica 8 de Março, projeto idealizado pelo maestro Ademir Araújo, que reuniu instrumentistas mulheres no Recife.
“Infelizmente, devido a toda a dificuldade que a gente enfrenta, a Filarmônica não deu andamento”, diz. A partir dessa experiência, decidiu direcionar as forças para o frevo. Assim nasceu a Orquestra Só Mulheres, que estreou no Carnaval de 2007, após um convite da Casa da Globo. “E aí não parou mais.”
Regência feminina em um território masculino
Ser maestrina, para Lourdinha, ultrapassa a técnica musical e alcança um papel de posicionamento social. “Eu não tenho que reger feito homem, eu não tenho que tocar feito homem”, afirma.
“Eu tenho que colocar a minha ciência feminina, eu tenho que ser mulher onde eu chegar”, completa. Para ela, o maior desafio é fazer o ambiente masculino compreender essa diferença. “É conseguir conquistar esse olhar masculino para essa sensibilidade feminina.”
A sensibilidade feminina de que Lourdinha fala é observada por ela na própria dinâmica de trabalho. “Com as meninas eu me realizo, eu me encontro”, diz. Já em formações masculinas, o embate é mais duro: “eles querem dominar”.
Em uma experiência da maestrina com uma banda militar masculina, foi preciso que ela reforçasse sua competência musical para ser respeitada como liderança. Na ocasião, lembra de dizer ao grupo: “eu super respeito vocês, mas, assim, olhem pra mim. A partir de agora, vai ser como eu comando”.
A própria Orquestra Só Mulheres já passou por situações de extremo desrespeito. Em uma apresentação no interior de Pernambuco, as musicistas foram recebidas com hostilidade por uma orquestra masculina.
“Eles não paravam de tocar, queriam abafar a gente de todo jeito. Soltaram bomba no meio da orquestra, que inclusive caiu assim junto de mim”, diz. “Foi assustador.”
O futuro do frevo
Embora se preocupe com o futuro do frevo, em meio a tantas formas culturais que surgem e ganham prestígio entre os mais jovens, Lourdinha se dedica à formação de novas musicistas para ocupar o cenário. “Aqui as meninas chegam aprendizes, verdinhas. A gente prepara e põe para o mundo da música.”
Garantir espaço às mulheres no frevo é também uma forma de manter o gênero vivo, pelo menos é o que Lourdinha defende e deve continuar buscando.





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