“Tu és pó e ao pó voltarás”. A frase bíblica, do “Livro do Gênesis” parece nortear o longa potiguar “Leite em Pó”, de Carlos Segundo, um filme de luto, segundo o diretor. E de música também. O filme foi exibido na competição nacional do 54º Festival de Cinema de Gramado.
Na apresentação, o cineasta o anunciou como seu primeiro longa. Que diabos! Ele parece renegar o primeiro de fato, “Fendas”, exibido em festivais brasileiros em 2019. Não é um filme para ser renegado. De todo modo, “Leite em Pó” é melhor. Revela uma mão mais segura para os tempos internos da narrativa, que são os mesmos do protagonista Vicente, vivido por Vinicius de Oliveira, o menino órfão de “Central do Brasil“, agora adulto.
Trata-se de um paulista que reside em Natal, RN, com sua avó. Pode-se dizer que sua vida é um tratado sobre o pó, desde a infância, quando só conseguia tomar leite se fosse com o pó diluído em água.
Apaixonado por rock, tenta ganhar a vida fazendo covers de bandas brasileiras de rock, versões constrangedoras para sucessos do Ira!, do Biquini Cavadão ou dos Titãs. Aos poucos, por saudade, passa a ouvir também sambas, inicialmente os de Agepê, preferido da avó.
Logo no começo, uma música toca na vitrola, até que algo a leva sempre a um ponto anterior da música. Percebemos que o disco está riscado, numa metáfora para a vida estagnada de Vicente, aos 38 anos. A avó, aliás, Zezita Matos, se enforca no lustre do quarto.
Ele a mantém em cima da mesa da cozinha coberta de sal grosso, até que o simpático personagem de Antonio Pitanga, uma espécie de padrinho, o convence a buscar a cremação.
Vicente atropela um cachorro por acidente e faz a mesma coisa com o animal. É um homem maduro só na idade, pois incapaz de largar as coisas que devem ser largadas. Se não leva uma dura do amigo e antigo companheiro de banda, vai sempre tentar se vender como um roqueiro de talento, o que claramente não é.
Numa dessas tentativas, recebe uma contraproposta da fotógrafa que conheceu num evento: tentar vender uma série de álbuns antigos com fotografias de formatura. As pessoas, por algum motivo, não quiseram comprar essas lembranças, talvez porque seus sonhos de estudante não se concretizaram.
A estagnação social, pessoal e profissional é um motivo do filme. Nesse novo emprego, acaba conhecendo novas pessoas e suas histórias, entre elas uma cabeleireira que sofre agressão do marido e não quer um álbum nem pintado de ouro, ou a senhora que aceita comprar o álbum, mas pede que ele a leve uma foto de cada vez, como se temesse uma overdose de lembranças.
Com a vida num impasse, Vicente parece depender de alguma ação drástica que porventura consiga realizar para que sua vida finalmente saia do lugar. Uma espécie de ruptura com seu estado de torpor.
Carlos Segundo filma de longe, procurando frequentemente um distanciamento crítico, o que não quer dizer que falte interesse no assunto ou nos personagens. Pelo contrário. O filme é bastante emotivo e pessoal, e talvez a estratégia seja justamente atenuar essa emoção com uma certa estranheza provocada pela distância.
Vez ou outra, até um certo humor invade o relato, como na hora em que Vicente e seus novos amigos cheiram as cinzas da avó como se fosse cocaína. A cena em si é até boba. Mas o diálogo posterior entre os amigos depois que Vicente passa mal e vai para o hospital provocou risos fortes na plateia.
Finalmente, o vício do protagonista em leite em pó, num dos sinais de sua apatia existencial, provoca outras experiências inusitadas, até um final que faz com que o filme cresça na memória. “Leite em Pó” homenageia a atriz potiguar Titina Medeiros, falecida em janeiro de 2026.
Ela interpreta a fotógrafa Jane, que oferece a Vicente a oportunidade de vender os álbuns de formatura. Era uma boa atriz, que nos deixa ainda jovem, antes de completar 50 anos.













