Hollywood tem parecido um pouco com um filme de terror nos últimos anos. À medida que cada vez mais filmagens migraram para o exterior e a produção nos Estados Unidos despencou, dezenas de milhares de trabalhadores perderam o emprego, mergulhando o setor em um estado de desespero.
Na última quinta-feira, a indústria do cinema e da televisão teve seu primeiro vislumbre de uma possível tábua de salvação —parlamentares em Washington apresentaram um projeto de lei que criaria os primeiros créditos tributários federais do país para produções cinematográficas e televisivas.
O projeto prevê um crédito tributário de pelo menos 20% sobre os salários da ampla gama de profissionais que fazem filmes e programas de TV. Isso inclui atores e diretores, bem como operadores de câmera e maquiadores.
Embora esse programa —que ampliaria os subsídios oferecidos pela maioria dos estados— tenha atraído apoio bipartidário e o endosso público do presidente Donald Trump, a aprovação do projeto está longe de ser garantida diante da proximidade das eleições de meio de mandato.
A proposta enfrenta obstáculos em um Congresso dividido, que tem tido dificuldades para chegar a um acordo sobre qualquer grande mudança de política e no qual a legislação tributária é particularmente controversa. Parlamentares raramente concordam em aprovar um benefício fiscal para um setor específico sem tentar vinculá-lo a uma série de incentivos destinados a outros grupos de interesse, e as chances de que um pacote desse tipo se concretize são, na melhor das hipóteses, incertas.
Mas a simples apresentação do projeto representa o ponto alto de um esforço de décadas para enfrentar uma crise em Hollywood que se tornou ainda mais evidente desde a pandemia de coronavírus —a maioria dos grandes filmes não está sendo produzida nos Estados Unidos.
“Vamos perder a primazia na produção de entretenimento se não fizermos isso”, disse Sean Astin, presidente do sindicato de atores Screen Actors Guild-American Federation of Television and Radio Artists, na semana passada, durante uma teleconferência sobre a campanha pela legislação de créditos tributários.
Pelo menos três dezenas de estados oferecem incentivos fiscais. Uma análise de 2024 do The New York Times constatou que os estados haviam distribuído mais de US$ 25 bilhões, cerca de R$ 130 bilhões, por meio de seus programas, que, na prática, reembolsam uma parcela —de 20% a 30%— dos custos de produção elegíveis. Esses custos muitas vezes incluem mais do que salários, que são o foco do incentivo federal.
Mas os estúdios estão filmando com menos frequência em Los Angeles e Atlanta e, em vez disso, indo para cidades como Londres, Vancouver e Bucareste, por estarem em países com incentivos fiscais ainda maiores. Em muitos desses locais, o custo da mão de obra também é consideravelmente menor.
Alguns estudos recentes estimam que até 60% das filmagens com atores reais sejam feitas atualmente fora dos Estados Unidos. “Resident Evil”, a comédia de terror de Zach Cregger, foi filmada na República Tcheca; “The Dog Stars”, de Ridley Scott, se passa no Colorado, mas foi filmado na Itália.
Essa transferência de produções para o exterior, como o fenômeno é conhecido, teve um impacto profundo sobre Hollywood. Segundo algumas estimativas, a produção em Los Angeles caiu um terço na última década, o que deixou milhares de profissionais do setor desempregados ou em situação grave de subemprego.
A legislação apresentada na tarde de quinta-feira prevê um crédito tributário federal sobre o custo da mão de obra em longas-metragens, episódios-piloto de televisão ou temporadas de séries, desde que esse custo ultrapasse US$ 1 milhão, cerca de R$ 5 milhões. Ela inclui um incentivo semelhante para trabalhos de efeitos visuais e pós-produção.
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Pelo menos três quartos do trabalho devem ser realizados nos Estados Unidos para que um projeto possa receber recursos por meio da proposta, conhecida como Lei de Revitalização do Cinema, da Televisão e do Entretenimento.
Não há limite para os recursos, e não está claro quanto custaria um programa federal. No âmbito estadual, a Califórnia destina anualmente US$ 750 milhões a incentivos, cerca de R$ 3,9 bilhões, enquanto o programa da Geórgia custou mais de US$ 5 bilhões, cerca de R$ 25 bilhões, entre 2015 e 2022.
O crédito tributário federal pode ser acumulado com incentivos estaduais. As produções também podem se qualificar para recursos adicionais, conhecidos como acréscimos, caso filmem em determinadas áreas rurais ou atingidas por desastres, realizem projetos em dez ou mais estados ou adotem certas medidas para ampliar as filmagens no país. Filmes independentes também poderão receber um acréscimo.
No total, a legislação federal permite um crédito transferível de até 30%. Quando somado a um incentivo estadual, um estúdio poderia ter cerca de metade de seus custos elegíveis cobertos.
Muitos cineastas afirmam que isso equilibraria as condições de concorrência o suficiente para tornar as filmagens nos Estados Unidos novamente uma opção realista.
“Não precisa ser o melhor incentivo. Não precisa ser o lugar mais barato para filmar”, disse Scott Karol, que trabalhou em estreita colaboração com o ator Jon Voight para conseguir que Trump endossasse um crédito tributário federal para o cinema.
“Só precisamos ser competitivos”, acrescentou Karol, presidente do SP Media Group. “Todo mundo quer fazer filmes aqui.”
Políticos e líderes sindicais que apoiam a legislação a apresentam como um projeto de geração de empregos, e não como uma benesse para Hollywood, como dizem os críticos. Campanhas por programas semelhantes tiveram êxito tanto em estados republicanos quanto democratas, recorrendo, em grande parte, ao mesmo argumento.
Líderes dos sindicatos que representam centenas de milhares de integrantes de equipes técnicas, atores, diretores e outros profissionais têm demonstrado uma espécie de otimismo incansável em relação à legislação. Mas há inúmeros obstáculos políticos e logísticos que alguns reconhecem de forma mais discreta.
É improvável que alguém tome alguma medida em relação ao projeto antes das eleições de meio de mandato, em novembro. E, se os democratas assumirem o controle da Câmara dos Representantes, não está claro se os benefícios fiscais para Hollywood continuariam sendo uma prioridade para o presidente.
Alguns parlamentares podem resistir a um programa que provavelmente beneficiaria de maneira desproporcional os estados que já contam com incentivos mais generosos. Conservadores fiscais poderiam se opor a uma legislação que aprofundaria ainda mais o déficit federal.
Os defensores do projeto pressionam para incorporá-lo a uma medida orçamentária de fim de ano que o Congresso deverá analisar após as eleições de novembro, a fim de financiar o governo até o início da nova legislatura, em janeiro. Mas incluir mudanças tributárias nesse tipo de projeto pode ser complicado e exigiria um acordo mais amplo entre os líderes dos dois partidos.
Em 2025, Karol, Voight e Steven Paul, empresário de longa data de Voight, começaram a se reunir com Trump para discutir formas de ampliar a produção cinematográfica no país. A declaração do presidente de que imporia uma tarifa de 100% sobre filmes produzidos fora dos Estados Unidos nunca se concretizou. Eles também se reuniram duas vezes neste ano, em fevereiro e no fim de agosto.
Na reunião de agosto, mostraram ao presidente um estudo encomendado pela Motion Picture Association que enaltece os benefícios econômicos de um crédito tributário federal para o cinema. Antes do fim do encontro, Trump já havia redigido uma publicação para as redes sociais sobre a necessidade de um incentivo. Começou então a corrida para elaborar um projeto de lei.












