Livro de 700 páginas usa capas de cordel para contar história do design no Brasil

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Livro de 700 páginas usa capas de cordel para contar história do design no Brasil


Uma pasta digital com cerca de 8.000 imagens de capas de cordel, reunidas ao longo dos anos pelo designer alagoano Victor Yves, deu origem a um livro de 700 páginas.

“Visual Culture of Northeast Brazil – Cordel Edition” reúne mais de 500 capas produzidas dos anos 1950 até hoje e procura olhar para o cordel menos como gênero literário do que como parte da história do design gráfico brasileiro.

Publicado em inglês, o volume chega ao Brasil acompanhado de “A Oficina Verbal das Capas”, complemento criado especialmente para esta edição. Com cerca de 90 páginas, reúne traduções de textos do livro e inéditos de autores como Xico Sá, Isabelly Moreira, Chico Homem de Melo, DJ Dolores, Fausto Fawcett, Lirinha e Cristhiano Aguiar.

Nascido em Arapiraca, no interior de Alagoas, Yves frequentava ainda criança as feiras de rua com o pai. O cordel estava nas feiras, mas também nas bancas de jornal.

Seu interesse, diz, era primeiro visual. Mais tarde, já estudando design gráfico, estranhou que aquela produção praticamente não aparecesse em sua formação acadêmica.

Durante cerca de 15 anos, Yves foi salvando no computador reproduções de capas encontradas sobretudo por meio de buscas online. No começo de 2025, percebeu que a pasta já reunia cerca de 8.000 imagens. “Eu nunca procurei estudar a fundo a poesia. O que me atraía era a tipografia e a ilustração das capas.”

O material deu origem ao site Arquivo Casca (casca-archive.org), organizado por autor, cor e tipo de produção gráfica. Para o livro, Yves procurou também acervos e pesquisadores, entre eles o Instituto Brincante e o poeta e folclorista Marco Haurélio, responsável pela revisão.

Ao conhecer o arquivo, a jornalista Olivia Hingley, do site britânico It’s Nice That, destacou não apenas as xilogravuras, mas sobretudo a tipografia vernacular. “Foi a primeira vez que tive certeza de que o cordel estava completamente fora da academia”, diz Yves.

Para Yves, a tipografia vernacular não se resume às letras desenhadas à mão. Ela inclui também soluções produzidas com instrumentos, matrizes de madeira e tipos móveis manipulados artesanalmente. O autor observa a distância entre a padronização industrial e a variedade que surge dessas formas de produção.

O recorte das mais de 500 capas não foi feito pela fama dos cordelistas ou pela importância literária dos títulos. “Minha escolha foi muito no sentido de diversidade de tipografia”, diz.

Entraram também diferenças de impressão, uso de cores e técnicas gráficas. Yves cita como exemplo o emprego de cor por J. Borges em xilogravuras. O livro passa ainda por artistas como Mestre Dila, Mestre Noza, José Costa Leite, Mestre Nunes e Mestre Expedito.

A tipografia ocupa boa parte da argumentação. Há títulos desenhados à mão, letras feitas com matrizes de madeira e composições montadas com tipos móveis, muitas vezes gastos ou incompletos.

As condições materiais de impressão também entram nessa leitura. “Às vezes o próprio desalinhamento de letras cria uma identidade nova para a tipografia”, diz.

Yves compara essa inventividade ao trabalho contemporâneo dos designers de tipos, que buscam características capazes de distinguir uma família tipográfica de outra.

Há ainda a maneira como o tamanho das palavras interfere na leitura. “Eles usam a tipografia como voz. Às vezes você tem um título muito grande ou muito pequeno para expressar algo. Isso é de uma inteligência enorme, porque essa turma não tinha estudo formal de design gráfico.”

Ao longo das páginas, repetem-se cangaceiros, diabos, santos, vaqueiros, bois, monstros e políticos, formando uma espécie de gramática visual ligada ao sertão, à religião, ao fantástico, à sátira política e à vida cotidiana.

Nesse ponto, Yves delimita o alcance do trabalho. “Sou formado em design gráfico, então tive muito cuidado de me ater ao que é da minha área de conhecimento.”

Ele espera que o livro leve pesquisadores de outros campos a estudar outras camadas do cordel, como a poesia e a simbologia.

Vistas em conjunto, as capas compõem também uma espécie de registro popular da história do Brasil. Há títulos sobre cangaço e religião, mas também sobre futebol, eleições, Plano Cruzado, Aids, o acidente com césio-137 em Goiânia, a chegada do homem à Lua e personagens da cultura de massa como Roberto Carlos.

Outro capítulo trata do que Yves chama de “a feira como museu”. A expressão nasceu da comparação com os zines, publicações gráficas independentes que ele encontra à venda em museus no exterior, enquanto o cordel circula tradicionalmente nas feiras nordestinas. “Achei bonito chamar de museu o mercado que é tão nosso, tão brasileiro”, diz.

Autofinanciado e publicado pelo próprio Casca, o livro teve tiragem de mil exemplares. Os 500 destinados ao mercado internacional, impressos na China, já se esgotaram; outros 500 foram produzidos no Brasil, onde o volume custa R$ 450.

A ideia do complemento e da turnê brasileira foi do artista e DJ Eduardo Beu, editor de “A Oficina Verbal das Capas” e curador do circuito de lançamento. Ele propôs levar o projeto a quatro cidades e reuniu os especialistas locais para participar, além dos convidados a escrever no complemento.

O próprio complemento procura reproduzir essa materialidade. Produzido em Caruaru, “A Oficina Verbal das Capas” foi impresso e encadernado na Casa do Cordel Mestre Dila por Waldênio Silva, neto do xilogravurista. O volume adota formato próximo ao dos folhetos tradicionais e traz um cordão lateral que funciona como marcador.

A turnê começa em São Paulo na quinta-feira (1º), às 19h, no Jesuíno Brilhante, em Pinheiros, com uma roda de conversa que reunirá Victor Yves, Eduardo Beu, Xico Sá, Cristhiano Aguiar e o poeta e pesquisador Assis Ângelo.

Yves não considera o levantamento encerrado. “Coloquei como volume 1 porque sabia que 500, apesar de ser um número expressivo, não é nem próximo do que existe.”



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