Por que publicar em 2026 um novo livro sobre o golpe de 64, um dos temas mais pesquisados da história recente do Brasil? Heloisa Starling já começa a dar pistas da resposta na epígrafe do seu “A Máquina do Golpe”: “O passado, ainda que pareça imóvel, nunca para de se mover” (Rodrigo Fresán, no romance “O Fundo do Céu”).
Programado para sair em 2024, nos 60 anos do golpe, o livro atrasou, mas seu conteúdo independe de efemérides. Até porque é como se a autora, professora titular de história da UFMG, tivesse há muito tempo um encontro marcado com o trabalho que acaba de ser lançado.
Em seu mestrado em ciência política, nos anos 1980, Heloisa pesquisou o grupo “Novos Inconfidentes“, “a mais poderosa força de ultradireita que atuou em Minas Gerais”, como ela define. Formado por empresários, militares, policiais, fazendeiros, religiosos etc., o núcleo teve papel central em Minas para a derrubada do governo de João Goulart.
Sua dissertação resultou no livro “Os Senhores das Gerais – Os Novos Inconfidentes e o Golpe de 1964” (Vozes, 1986, esgotado). O orientador de Heloisa no mestrado na UFMG foi o cientista político uruguaio René Armand Dreifuss, autor de “1964 – A Conquista do Estado” (Vozes, 1981, esgotado), trabalho referencial ao dissecar o papel do empresariado brasileiro (aliado aos militares e aos EUA) no golpe.
“A Máquina do Golpe” é dedicado a Dreifuss. “Ele tem uma grande importância para a ciência política e a historiografia brasileira e uma importância enorme na minha formação, me ensinou a procurar documentos ligados a esse contexto, me apontou caminhos fundamentais na pesquisa. E falava para mim: ‘Você precisa escrever bem, vai ler literatura, aprende com a literatura’”, ela conta.
A história da ditadura –e de formas de autoritarismo no país de modo geral– sempre teve lugar de destaque no campo de pesquisa acadêmica de Heloisa. Além disso, desde 2015, a historiadora coordena a coleção “Arquivos da Repressão no Brasil”, da Companhia das Letras, editora pela qual lançou também “Brasil: Uma Biografia”, em parceria com Lilia Schwarcz, com um longo capítulo dedicado ao golpe.
Todo o repertório confluiu para uma abordagem ao mesmo tempo ampla e direcionada à compreensão das engrenagens do golpe que instituiu a mais longa ditadura da história brasileira (21 anos, de 1964 a 1985). “Eu não queria fazer um livro de conjuntura. Queria entender e mostrar exatamente: o que é um golpe de Estado? Como se constrói e põe em ação? Como são as etapas desse golpe? Quais os momentos cruciais? Como os envolvidos atuaram? Eu acho que esse é o ineditismo do livro”, comenta a autora.
Outra pergunta que ronda uma empreitada do tipo é: e como contar essa história tão conhecida de modo original? Heloisa optou por restringir o arco temporal a um período curto, dois meses e meio, dividido em oito datas, de 31 de março a 13 de junho, cada uma correspondente a um capítulo.
No primeiro, sobressai o papel de Minas Gerais no golpe, com a quartelada do general Olímpio Mourão Filho a partir de Juiz de Fora antecipando a ruptura iminente e a atuação do governador Magalhães Pinto na conspiração. “Em nenhum outro estado brasileiro os generais e o governador haviam tramado com tamanha afinação como iriam derrubar o presidente da República”, escreve.
O capítulo “1º de abril” descreve com minúcias a participação dos EUA no golpe, com destaque para o passo a passo da Operação Brother Sam (envio de uma força-tarefa naval americana ao litoral brasileiro com armas, combustível e suprimentos para apoiar os golpistas) e o papel central do embaixador do país no Brasil, Lincoln Gordon.
A contribuição do presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, ao rasgar a Constituição e declarar vaga a Presidência que não o estava; a criação de uma junta militar que logo subjugou o presidente interino, Ranieri Mazzilli; e a capitulação de Jango, imune aos apelos de Brizola para resistir, integram o terceiro capítulo (“2 de abril”).
O quarto capítulo (“3 de abril”) é dedicado ao Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), cuja centralidade no golpe foi revelada por Dreifuss em “1964 – A Conquista do Estado”. “Em público, (…) era quase inofensivo. Apresentava‑se como um think tank, talvez um dos primeiros a surgir no país”, escreve a autora. Na prática, foi o que ela chama de “Estado-Maior” do golpe: uma aliança entre empresários e militares para “preparar, coordenar e executar” a derrubada de Jango e a tomada do poder.
Heloisa revela como o modelo do Ipes foi exportado para o Chile do pré-golpe de Pinochet, situa a importância do então coronel Golbery do Couto e Silva como formulador e dá nome aos empresários que integravam a entidade, mostrando suas conexões com empresas americanas. “Em pouco mais de dois anos, entre 1961 e 1964, o Ipes recebeu aporte financeiro vindo de 297 multinacionais nos Estados Unidos e de 101 empresas sediadas em outros países, em especial no Reino Unido e na Alemanha”, informa a autora.
O quinto capítulo (“9 de abril”) se debruça sobre o ato institucional que instituiu a ditadura e a imposição de Castello Branco como primeiro ditador (com endosso do Ipes), derrotando a ala de Costa e Silva. “As pessoas olham muito para o AI-5 por causa da violência da repressão, mas a estrutura da ditadura está no AI-1. Tentei mostrar isso e falar: olha, gente, é isso aqui que vai sustentar todo o eixo da ditadura militar”, diz a autora.
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Os três capítulos finais tratam da farsa da “eleição” de Castello Branco e do fortalecimento da aliança entre o Ipes e a ESG, Escola Superior de Guerra (“11 de abril”); da posse de Castello, da instituição do AI-2 –sufocando Congresso e Judiciário e extinguindo partidos– e das medidas econômicas sintonizadas com o Ipes (“15 de abril”); e da criação do SNI, o Serviço Nacional de Informações, por Golbery (“13 de junho”).
Um recurso que dá ritmo e atmosfera cinematográfica à narrativa é o uso, como subcapítulos, do horário em que ocorreram os principais acontecimentos.
Heloisa agradece os conselhos daquele que considera o maior historiador brasileiro, Evaldo Cabral de Mello, “mestre da arte de narrar”. Conta que recebeu do conselheiro dicas preciosas sobre a necessidade de construir cenas e imprimir ritmo para segurar a curiosidade do leitor quanto ao que vem a seguir.
“E tem uma terceira coisa que ele falou: a senhora não se meta engraçada, a senhora é historiadora, então se está dizendo que o sujeito puxou um maço de cigarro, qual é o cigarro que ele fuma? Falei: não sei. ‘Então vai pesquisar, você não faz ficção’.” E então Heloisa descobriu que, em 1964, Golbery fumava Continental sem filtro.
À parte os protagonistas, a autora recorre também a personagens secundários para mostrar a brutalidade da ditadura nascente, ratificando que ela mereceu esse nome desde o início, e não só após o AI-5. É o caso do coronel Danilo Darcy de Sá da Cunha e Mello, encarregado de chefiar IPM (Inquérito Policial Militar) em Goiás, que condenou assim um professor universitário: “A opinião pública de Goiânia é conhecedora desse fato [de que ele era “realmente comunista, subversivo e agitador”]”.
Além de recorrer a autores de clássicos sobre golpe, como Jorge Ferreira, Hélio Silva e Maria Celina D’Araújo, e outros nem tanto (Javier Cercas é lembrado para definir como “golpe de autor” a aventura do general Mourão ao detonar sua quartelada), Heloisa salpica o livro de referências espirituosas. Lembra Otto Lara Resende para sintetizar o protagonismo dos EUA no processo. “Basta de intermediários –Lincoln Gordon para presidente”.
Ao tratar do jurista que redigiu a Constituição da ditadura do Estado Novo e do AI-1, lança mão de Rubem Braga: “Quando o prof. Francisco Campos acende suas luzes, há sempre um curto‑circuito nas liberdades republicanas”. E cita a síntese de Ivan Lessa sobre a longevidade da ditadura: “Tudo na vida é passageiro, menos o general, o almirante e o brigadeiro”.
Embora saiba que seu novo trabalho é muito atual (“a história se repete, o reacionarismo não cai do céu”) e que será útil para “enfrentar a falsificação histórica de 64 que continua a ser feita pela extrema direita”, a autora evitou fazer associações com o Brasil do século 21. “Se eu trouxesse para o presente, acho que ia fazer uma bobagem, uma coisa rasa. Tenho que mostrar para o leitor para que ele pense e veja essas associações.”
Assim, não é spoiler adiantar a frase final do livro, quando o objetivo dos golpistas tinha enfim sido consumado: “Só então a máquina do golpe foi pausada; mas permaneceu à espreita”.












