Na música “Pe Rembi’urama”, uma bateria acelerada de heavy metal dá lugar a um pandeiro conforme sons de pássaros criam a ambiência para que a carioca Lua Viana despeje vocais gritados no estilo gutural. “Aju-ne ixé, pe rembi’urama”, ela canta na faixa de “No Ritmo da Terra”, álbum de seu projeto Antropoceno.
A frase de abertura foi escrita em tupi antigo e quer dizer “aqui estou eu, vossa futura comida”. O verso, segundo a cantora, remete a uma frase que teria sido dita pelo soldado alemão Hans Staden quando foi aprisionado pelos tupinambás, que praticavam canibalismo, no século 16.
Inspirado por Ailton Krenak, o disco da Antropoceno é um dos dois álbuns brasileiros ranqueados entre os 20 melhores deste ano, considerando lançamentos de todo o mundo, no site Rate Your Music —espécie de Letterboxd da música, em que usuários dão nota aos discos.
O outro álbum brasileiro listado é “Caminhos de Água”, do Kaatayra, projeto do brasiliense Caio Lemos, em quinto lugar —logo atrás do disco “Wor$t Girl in America”, da cantora americana Slayyyter. Ele caiu no gosto dos gringos assim como a banda paraibana Papangu, elogiada pelo jornal britânico The Guardian e com 16 shows marcados em dez países da Europa em agosto.
Em comum, esses artistas transitam entre o rock pesado e vertentes do heavy metal com influências da cultura, da música, da flora e da fauna brasileira. Eles fazem referências a cachoeiras e pássaros, ao cangaço, aos ritmos e religiões afro-brasileiros e à filosofia e idiomas dos povos originários do Brasil.
Autodidata, Lua Viana começou a tocar sob influências de indie, shoegaze, black metal e thrash metal, além do samba que ouvia com a família. Em seu primeiro projeto de rock, Sonhos Tomam Conta, achou que estava seguindo um caminho individualizante —”muito sobre mim, como me sinto”.
Passou a querer não só reproduzir o espírito de seu tempo, mas interagir com ele. “Quis me colocar como sujeito capaz de dialogar e criticar o que está colocado pela sensação de fim do mundo, pelo pós-pandemia e pelas mudanças climáticas.”
O contato com livros de Krenak, diz, foi um choque. “É uma perspectiva interessante para nós, que não somos indígenas. Passamos a ver como construção social o que tomávamos como verdade absoluta.”
Lua quis fazer música para questionar uma perspectiva de mundo, de progresso, de crescimento e de aceleração tecnológica. Se inspirou em como povos indígenas resistem ao colonialismo mantendo suas tradições —algo que identificou também no candomblé, do qual é adepta.
Ela juntou então o conceito filosófico com a música do Metá Metá e do Kaatayra, além da antropofagia do manguebeat e da tropicália. Tocou na guitarra melodias do candomblé, evocou os rios com sons de sintetizadores e usou gravações de pássaros —para a cantora, “seres dotados de subjetividade que são capazes de produzir música”.
Seu disco, “No Ritmo da Terra”, lançado pelo selo americano Longinus Recordings, reflete nas guitarras sujas e nos sons guturais o caos urbano em contraponto aos orixás e às paisagens da natureza.
Ela gravou quase todos os instrumentos sozinha, em casa, o que torna difícil tocar as músicas da Antropoceno ao vivo. Seu próximo passo, diz, é montar uma banda para fazer shows no Brasil e conseguir atender aos convites vindos do exterior.
Caio Lemos, a mente por trás do Kaatayra, passa por problema parecido. Ele diz que já recebeu diversas propostas para fazer shows fora do país, mas reproduzir seu disco “Caminhos de Água” no palco é quase impossível. “Precisaria de uns oito ou dez músicos”, afirma, incluindo gente para tocar marimba, flautas e diversos instrumentos de corda.
O álbum tem sonoridade acústica, um dos diferenciais do Kaatayra. Ele faz black metal, estilo associado às guitarras distorcidas, só que com violões.
“Gosto de fazer riffs de metal no violão, então tive a ideia de fazer a palhetada do violão junto com [a bateria no estilo] ‘blast beat’, típico do black metal, combinando esses dois elementos.”
Outro ponto de singularidade é a influência do Brasil, que surge em ritmos afro-brasileiros —eles não são protagonistas, mas permeiam seu novo álbum. “Somos brasileiros, não tem como fugir”, diz. “Em festa e confraternização é sempre samba, axé. Está na gente. Acaba sendo natural reproduzir isso misturando com black metal, que é europeu.”
O nome do projeto vem do tupi antigo, significando algo como filho do mato. “Nem sei se está correto. Gosto da palavra caatinga, fui atrás para saber e deu nisso”, diz. Seu interesse pelas palavras é tanto que o levou a inventar um dialeto no disco “Inpariquipê”, de 2021.
Mas a grande influência brasileira de Lemos está na natureza. O Kaatayra, diz, surgiu a partir de suas experiências no mato e do uso de substâncias enteógenas. “A gente vive um cotidiano urbano e fica desconectado disso. Para mim, é como um católico indo à missa. Busco paz espiritual na natureza —algo bem tilelê, bem hippie.”
Os rios de Goiás, em particular, inspiraram “Caminhos de Água”, feito após uma viagem à Chapada dos Veadeiros. Ele escreveu as letras instintivamente, impactado pelas águas, e passou quase quatro anos lapidando a sonoridade do disco.
A paisagem e a cultura brasileira também motivam o que os integrantes do Papangu chamam de “rock troncho” ou “hermetocore”. Os pessoenses aclamados pelo Guardian escolheram essas palavras —a segunda remete a Hermeto Pascoal— para definir um rock que trafega pelo progressivo e pelo heavy metal sob ótica nordestina.
Primeiro disco da banda, “Holoceno”, de 2021, retrata um cangaceiro em um apocalipse ambiental. O segundo, “Lampião Rei”, de 2024, trata do cangaço numa espécie de realismo mágico.
“A cultura nordestina é permeada por influências das religiões de matriz africana, afro-indígenas e indígenas, especialmente tudo que envolve o caboclo. Essa figura permeia as composições da banda”, diz o vocalista e tecladista Rodolfo Salgueiro.
Além das letras e visuais, o Papangu mimetiza no rock os ritmos do Nordeste. Dito assim parece a mistura de hardcore com forró do Raimundos nos anos 1990, mas o resultado é bem diferente.
“Eles faziam isso um pouco ironicamente”, diz Salgueiro. “A figura do nordestino era ingênua, autodepreciativa. Esse personagem nas músicas do Raimundos era um jovem que se acha feio, que não vai conseguir a menina, que tem um sotaque exagerado.”
O Papangu, diz Salgueiro, bebe mais da psicodelia nordestina de Ave Sangria, no “Paêbirú“, e dos primeiros álbuns de Alceu Valença, além de baião, ciranda e maracatu, entre outros. Salgueiro tocava em bandas de forró antes do Papangu e o multi-instrumentista Pedro Francisco é pesquisador de música brasileira.
“Algumas bandas sentem que precisam incluir triângulo, sanfona ou falar de Lampião porque são do Nordeste. Às vezes fica forçado”, diz. “Para nós foi natural porque a gente ouvia isso tudo —de Dominguinhos a Lula Côrtes.”
O Papangu desenvolveu sua sonoridade tocando ao vivo, diz o baixista Marco Mayer. “Tornou-se um negócio fora da caixa porque interpretamos essa música pesada sob a ótica da música nordestina —a harmonia com acordes em sétima, a sincope e coisas que você vê no forró, no maracatu, mas não no metal.”
A banda ficou famosa pelas apresentações inusuais, tanto no Brasil quanto no exterior —os Estados Unidos são o segundo país que mais ouve os paraibanos no Spotify. O grupo leva o frescor dos palcos ao novo álbum, “Celestial”, gravado de maneira analógica em Berlim após uma turnê pela Europa, previsto para 7 de agosto.
O Papangu, diz Salgueiro, conseguiu unir públicos tão distintos quanto a própria estética da banda. “É onde os metaleiros estão vendo improviso de flauta como se fosse o Hermeto Pascoal ao mesmo tempo que os jazzistas estão ouvindo pedal duplo, gutural e o ‘blast beat’. Ambos estão falando ‘é disso que eu gosto’.”











