Fido Nesti lança HQ policial sobre jornalista, ambientada na São Paulo dos anos 1970

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Fido Nesti lança HQ policial sobre jornalista, ambientada na São Paulo dos anos 1970


Logo depois de entregar sua versão de 1984 em quadrinhos para os editores, Fido Nesti deu início aos seus trabalhos em “O Elemento”. O novo álbum do artista paulistano de 55 anos traz seu traço estilizado característico, facilmente identificável para leitores da adaptação do clássico de George Orwell. Mas os designs de páginas e a trama surtada não poderiam ser mais distintos da sisudez estética e narrativa do livro de 2020.

Nesti conta que sua intenção com “O Elemento” era ir na direção oposta de “1984”, vencedor do Prêmio Eisner, o mais renomado da indústria de HQ dos Estados Unidos, na categoria de melhor adaptação. Ele queria “dar uma respirada, experimentar coisas novas”. O resultado é uma HQ policial ambientada na São Paulo do fim dos anos 1970 protagonizada por um jornalista em surto perseguido pela polícia em meio às investigações de ossadas encontradas no bairro da Liberdade.

“Depois de trabalhar na adaptação, eu queria algo mais solar, com mais cores, pitadas de humor aqui e ali”, explica o quadrinista sobre a trama frenética e o visual dinâmico de “O Elemento”. “[O Livro] ‘1984’ pedia aquele enquadramento mais rígido, para conseguir manter a narrativa do Winston Smith e o que se passava sob os olhos controladores do Grande Irmão. Já em ‘O Elemento’ eu busquei fazer mais experimentações.”

Nesti dá vazão em “O Elemento ao seu passado em zines e publicações independentes e experimentais, como as revistas Cybercomix e Heroína e a coleção miniTonto. Ele expressa a influência de contemporâneos vindos de fora como Charles Burns, Joost Swarte, Jacques Tardi e outros que fizeram história na página da lendária revista RAW, publicada nos Estados Unidos entre os anos 1980 e 1991. Já a trama mescla memórias de infância com uma notícia de jornal sobre ossadas humanas encontradas na Liberdade.

Desde 2018, escavadores têm encontrado restos mortais na rua dos Aflitos, próximo à Capela dos Aflitos. Em 2025, pesquisadores atribuíram os achados ao antigo uso do local como cemitério de pessoas escravizadas condenadas à morte. Nesti colocou os achados como parte das investigações do jornalista Arsênico, obcecado por elementos químicos.

Cada página do livro faz referência a um elemento químico, na ordem em que eles aparecem na tabela periódica. Ele achou que a proposta seria uma “diretriz facilitadora”, mas a regra autoimposta acabou dando rumos oníricos ao roteiro.

Entre idas e vindas à Liberdade para pesquisa, em busca de referências para seus cenários, Nesti foi somando suas lembranças de infância à história. Apesar de ter nascido na capital paulista, ele passou seus dez primeiros anos de vida em Cotia. A ida definitiva para São Paulo, em 1979, foi “trepidante”.

“Fliperama numa esquina, punks na outra, escapamentos ruidosos, outdoors gigantescos, muito concreto e asfalto”, lista o autor. “Eu me lembro bem da profusão de ideogramas que sinalizavam os mercadinhos e restaurantes da Liberdade, onde meus pais me levavam para experimentar espetinhos de camarão e outros petiscos. Com a cidade, tenho hoje uma relação de amor e ódio. Os moicanos sumiram, mas ela parece ficar mais punk a cada dia.”

Nesti ainda encaixou na trama um medo pessoal de infância: a queda da estação espacial Skylab sob sua cabeça, temor difundido com a reentrada do laboratório na atmosfera terrestre em julho de 1979.

“O Arsênico é uma vítima dos acontecimentos, não tem muito poder para consertar o que vai se desmoronando à sua frente”, reflete o artista sobre seu protagonista. “Ele não tem chance de se expressar muito bem porque numa hora está fugindo de balas, noutra é perseguido pela polícia ou pelos radiólogos do exército, ou então tendo alucinações com esqueletos e soldadinhos de chumbo. Praticamente sendo engolido pela cidade, o tempo todo.”



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