Os anjos despencam do céu entre nuvens espiraladas, o turbilhão do tempo. Eles nos olham do alto da galeria, arautos de tormentas que crescem no horizonte e testemunhas do caos, a ideia própria de suspensão da passagem das épocas como a tradução das mazelas brasileiras. É o eterno país do futuro, condenado ao moderno, mergulhado no barroco, onde massacres e chacinas não se enterram, não passam, sempre voltam à superfície dos dias. É de nossa beleza envenenada que falam todas essas obras, afinal.
Essas pinturas de Adriana Varejão, presas ao teto do pavilhão do Brasil nesta Bienal de Veneza, abraçadas pela viga de concreto que atravessa as galerias do espaço, são construídas como grandes azulejos trincados, o olhar de suas criaturas celestes filtrado pela sensação de ruína iminente. A tempestade flutua sobre uma instalação de Rosana Paulino, um muro de cimento construído pela metade, sua estrutura metálica saltando para fora —ferragens tortas que sustentam imagens de escravizados de outrora, rostos que também nos devolvem o olhar numa teia de vidas ceifadas.
Numa das mais fortes representações brasileiras realizadas em anos na mostra italiana, o diálogo entre Varejão e Paulino, orquestrado por Diane Lima, deixa nítida a ideia de construção que roça a ruína, a destruição arquitetada, escombros calculados quase como o nosso projeto de nação.
É a violência na raiz de tudo, que atravessa a história e não cessa, daí talvez a lembrança da planta que dá nome a uma série de desenhos de Paulino e também da mostra das duas artistas agora numa cidade flutuante alvoroçada por protestos políticos raivosos —comigo-ninguém-pode.
Essas plantas tóxicas crescem no vão entre as duas metades do pavilhão recém-restaurado, como se espantassem o mau-olhado, afastassem inimigos. É o corpo fechado, o veneno encarnado na exuberância verde. No fundo, é um Brasil de duplos, de contrastes doídos, que aparece nesses trabalhos, ancorado na carnificina da empresa colonial escondida atrás de esplêndidos azulejos, o barroco delirante azul e branco.
Na obra de Varejão, ao longo das últimas décadas, o sangue, a carne e as vísceras escapam para fora das frestas ou rasgos despudorados dessas superfícies quase sempre lisas, polidas e assépticas. Suas esculturas, pinturas e instalações grávidas de tensão deixam ver a carne viva que se agita por baixo dos disfarces, vindo à luz ao menor sinal de abalo, como se retratassem sempre uma construção à beira do abismo, fundações movediças capazes de ruir só pelo sopro daqueles anjos, só pelo brilho solar.
Dois de seus trabalhos mais antigos agora em Veneza ilustram bem isso. Um deles é a paisagem que ela chama de canibal, em que a visão em preto e branco de uma densa floresta se rasga para revelar um vórtice de entranhas cor de sangue que transborda da tela.
Seria quase “body horror“, não estivéssemos vendo ali plantas estilhaçadas. O outro são as incisões não menos violentas sobre uma superfície branca azulejada, a construção da imagem pelo talho, cortada a facão, como quem busca a verdade longe das aparências.
Mas esses montes de músculos, nervos, tripas e veias que marcam quase todas as fases das obras da artista até o momento agora se transformam, na mostra italiana, numa instalação que se alastra pelas paredes. Não é só sangue, no entanto. Existe vermelho vivo, mas há tons de dourado e também de verde, como se a dor e as feridas abertas pudessem se converter em alicerce de futuro, ou mesmo refletir a pilhagem das riquezas do país que ainda sustenta nosso constante estado de nervos expostos, guerras intestinas entre morro e asfalto, periferia e centro, remediados e super-ricos, direita e esquerda.
Esses estranhos frisos de carne, ouro, mata e terra formam cicatrizes pelas paredes, as marcas que teriam sido deixadas por lajes demolidas, uma escadaria arrancada, paredes deitadas abaixo, seja pela erosão devagar do tempo, seja por um rompante de fúria. A casa toda treme ao deixar ver as suas próprias entranhas.
Elas formam grossas linhas que recortam, emolduram, destacam da pasmaceira do cubo branco uma série de trabalhos de Paulino, frágeis painéis em que ela costura imagens fotográficas e desenhos de visões de crânios e bacias, um coração pulsante, registros de restos mortais, cenas cotidianas da era da escravidão, de uma falsa placidez, azulejos alvos e azuis. No centro, brilha o mar, a estrada dos navios negreiros que, não por acaso, a artista chama de Atlântico vermelho.
Uma fina linha escarlate costura esses agrupamentos todos, como artérias que pulsam em desafio à morte, e ao mesmo tempo o sangue derramado dos escravizados, a denúncia da artista da farsa que por tanto tempo se chamou de democracia racial no país.
São fragmentos, fotogramas da dor que parecem apresentados como as provas de um crime num tribunal, retalhos da nossa história farta em terremotos. A costura delicada da artista, ligando esses lampejos de relatos díspares, também parece, por outro lado, buscar a cura, os pedaços dilacerados ali suturados como numa cirurgia de reparação. É nesse sentido, talvez, que Paulino e Varejão reescrevem em traços viscerais a história colonial do país que sempre torna a se devorar.
Do lado de fora do pavilhão, uma escultura de Paulino é um eco dessa ideia. Uma das figuras que ela chama de tecelãs é uma mulher-inseto dotada de uma cascata de seios. Formando um círculo, em que boca e cauda quase se tocam, ela materializa, tecendo com os lábios, o seu próprio casulo, numa ação que a artista já comparou ao ato de tirar de dentro do próprio corpo a força da vida.
Uma centena dessas peças, em diferentes estágios do processo de construção de uma morada, se espalha por uma parede da primeira galeria do espaço —uma promessa de vida, o projeto da casa.














