Em novo disco, Vera Fischer Era Clubber expande o hedonismo e a melancolia

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Em novo disco, Vera Fischer Era Clubber expande o hedonismo e a melancolia


Jovens que bebem pouco e transam menos ainda —assim estudos e reportagens descrevem o comportamento nada animador da geração Z. Porém, contrariamente às estatísticas que mostram uma existência aborrecida passada em frente a feeds de redes sociais, ainda há uma parcela dos recém-saídos da adolescência que leva a vida no limite.

É sobre esta turma que a banda Vera Fischer Era Clubber nos fala. O quarteto de Niterói —sensação da música independente com letras sobre pistas de dança embaladas numa eletrônica sexy— segue com as suas aventuras de êxtase no segundo disco. O álbum está disponível a partir desta quinta-feira nas plataformas de streaming.

Embora o novo trabalho mantenha o clima devasso do disco de estreia, ele acrescenta um tanto de sabedoria adquirida com a idade. Isso porque as “Veras”, como as integrantes da banda se chamam carinhosamente, se aproximam dos 30 anos.

No primeiro disco, diz a vocalista e letrista Crystal Duarte, “a gente está falando de um gozo a partir do excesso, da ‘descaralhação’, é um gozo mais desgovernado”. Mas agora o cenário mudou: “é assim —o que eu preciso fazer na minha vida para gozar, uma vez que esses lugares comuns do gozo não dão mais liga? Para você achar o gozo nessa fase que a gente está, é uma coisa de autoconhecimento”.

Na atmosférica “Feitiço”, embalada por sintetizadores e teclados que dão à faixa um clima de manhã de domingo pós-noitada, Crystal canta “te peguei fazendo comigo o que a noite faz com o dia/ extingue/ domina”. A instrumentação e a voz são sinais de uma banda mais calma, que explora em parte do disco ritmos mais lentos, com menos batidas por minuto, segundo Peco, responsável pelos beats.

Em “Amor de Anjo”, o ouvinte está no território das músicas sobre a vida noturna —Vera Fischer Era Clubber atualiza o legado do grupo paulistano No Porn, de vocais falados sobre bases eletrônicas, uma combinação calibrada para apresentações ao vivo. “Eu sou um anjo/ eu sou uma puta/ dizem que eu sou bonita/ sou uma arma de sexo romântica/ um pedaço de carne nascido cheio de esperança”, canta Crystal.

“Amor de Anjo” também deixa ver outra característica do novo disco: o baixo marcado de Malu, mais presente em relação ao trabalho anterior. A banda —que conta também com Vickluz nos sintetizadores— parece ter assumido sem vergonha suas influências do pós-punk.

Artista do selo Palatável Records, o conjunto começou pequeno, tocando para pouca gente que não o conhecia em shows menores no Bar Alto, em São Paulo. Dois anos depois, a banda reúne centenas na Casa Natura Musical, um espaço maior na cidade, e a plateia canta junto várias letras. No palco, as Veras parecem mais confiantes de si e de sua arte, experiência adquirida com apresentações pelo Brasil todo.

“O trovão chega antes do raio. A gente está fazendo muito barulho, mas ainda não tocou fogo, não atingiu o impacto. O segundo álbum vem para consolidar a promessa do primeiro —mostrar que a gente tem liga, tem fôlego”, afirma Crystal.

Numa sociedade obcecada com a felicidade e o bem-estar, com o corpo e o sono em dia, Vera Fischer Era Clubber nos lembra da sensação de possibilidade infinita que a pista de dança nos dá —e também da leve melancolia trazida pela ressaca do dia seguinte, as lembranças enevoadas do que a noite prometeu e não entregou.

O novo disco é uma ode às emoções da vida, no sentido filosófico, e uma peça que estava faltando no quebra-cabeça da música brasileira, no artístico. “Eu sinto muito/ eu sinto tudo/ eu sinto pouco”, canta Crystal em “Vesúvio”, não por acaso o nome de um vulcão. “Um Vesúvio/ eu explodo.”



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