Data venia, vergonha!

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Data venia, vergonha!



O discurso inicial altivo no meio de um mar de lama pode ter sido proferido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, naquela que certamente será vista no futuro com uma das mais tristes sessões da cúpula do Judiciário brasileiro. Apesar de Fachin ter lembrado a responsabilidade dos nada excelentíssimos juízes com as próximas gerações, o que se entrega à história é uma corte maculada por dentro, com a maioria dos integrantes se comportando como filiados partidários. O pedido de vista ao final da sessão foi o toque de requinte da decadência explícita em um STF alheio ao interesse coletivo, preocupado com seus umbigos e desconectado da realidade da população.
O acúmulo de indícios da participação de alguns ministros foi menosprezado no mar de lama aludido, de passagem, por Flávio Dino, segundo o qual jamais o Judiciário nacional esteve tão contaminado pela corrupção quanto neste momento em que se julga, sim, a própria estrutura do poder em que Fachin e Dino são protagonistas. Curiosa é afirmação do juiz Dino sobre o alcance da corrupção nos tribunais, enquanto atua escancaradamente para encobrir, postergar e anular uma investigação sobre corrupção na corte que integra. Depois de insultar Fachin, chamando-o de autoritário, coroou sua atuação pedindo vista e jogando tudo para frente. Assim, não se decide nada, como se nada fosse urgente no estado de descalabros que recai sobre o Judiciário com uma avalanche de denúncias sobre integrantes do Supremo.
A consagração da desconexão com a sociedade não poderia ter outro resultado senão resultado nenhum. O que corrobora a sensação popular de pizza distribuída aos juízes, paga pelos brasileiros, claro. Grande era a expectativa dos que acreditam na recuperação da credibilidade do Judiciário, na sessão em que se discutiram mais procedimentos regimentais do que os riscos à democracia, em um STF sob suspeição que envergonha, com razão, a ministra Cármen Lúcia, traduzindo o sentimento dominante na população diante da consumação do vexame de um plenário movido pela suprema contradição da justiça sem justiça.
Única mulher na corte recheada de togados, como se a toga fosse o manto ridículo da invisibilidade, Cármen Lúcia reconheceu o peso da responsabilidade histórica e pediu desculpas ao povo brasileiro. Dizendo-se em profunda consternação e tristeza, a juíza cercada por juízes cheios de ódio e sarcasmo assumiu, de certo modo, a culpa que não lhe cabe, ou pelo menos não exclusivamente: o mal-estar cívico a que se referiu se recobre de indignação generalizada, espalhada pelo território nacional – mesmo que seus colegas de toga façam de conta que não é com eles.
As 52 mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes não foram sequer mencionadas na sessão. Assim como outros indícios de envolvimento de Moraes e outros integrantes do STF com o dono do Master. O Brasil foi exposto ao vexame  por uma corte de juízes espertos. E a vergonha expressa pela juíza entra para a história de vexames institucionais que impulsionam a crise nos Três Poderes – que alguns pedem vista para não ver.



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