Para a escritora Bruna Maciel, colocar sentimentos e experiências no papel pode se tornar uma prática aliada aos demais cuidados com a saúde mental
Mirella Araújo
Publicado em 11/09/2026 às 15:06
| Atualizado em 11/09/2026 às 15:41
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As dificuldades de dialogar abertamente sobre os próprios sentimentos e a tendência de reprimir emoções como ansiedade, tristeza, raiva, medo e até momentos de felicidade podem contribuir para o isolamento social e emocional, especialmente entre os jovens.
Nesse contexto, a escrita pode ser uma ferramenta simples de expressão e organização dos pensamentos. Para a escritora e facilitadora Bruna Maciel, colocar sentimentos e experiências no papel pode se tornar uma prática aliada aos demais cuidados com a saúde mental.
A proposta, no entanto, não substitui o acompanhamento profissional ou outras formas de cuidado, mas pode fazer parte de uma rotina voltada ao bem-estar emocional.
“A escrita não serve apenas para registrar aquilo que já sabemos ou pensamos. Muitas vezes, é durante o próprio ato de escrever que um pensamento se organiza, uma associação aparece ou encontramos palavras que ainda não tínhamos encontrado. Escrever pode criar esse tempo de olhar para uma experiência de outro lugar, sem a obrigação de chegar imediatamente a uma resposta”, explica Bruna.
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Excesso de estímulos
Imersos nas tecnologias, os jovens têm incorporado cada vez mais ferramentas digitais à rotina, seja nos estudos, com a crescente utilização da inteligência artificial, seja no consumo de conteúdos pelas telas e nos jogos on-line.
Em meio a essa rotina marcada pelo excesso de estímulos e pela velocidade das informações, a escrita manual também tem se distanciado do dia a dia.
Além de ser uma forma de registrar ideias, porém, o ato de escrever pode abrir espaço para uma experiência diferente daquela proporcionada pelo consumo rápido de conteúdos nas telas. Para a facilitadora Bruna Maciel, escrever à mão exige uma pausa, permitindo que a pessoa organize os pensamentos e perceba melhor aquilo que está vivendo.
“Quando escrevemos, precisamos parar, escolher palavras e sustentar uma ideia. Existe um tempo diferente nesse processo. E esse tempo pode ser importante para perceber o que estamos vivendo, sem a obrigação de encontrar uma resposta imediatamente”, afirma Bruna.
Atenção às violências
Os efeitos da exposição a situações de violência também fazem parte da experiência escolar de adolescentes. Experiências de bullying e cyberbullying podem fazer com que alguns estudantes se sintam expostos ou vulneráveis e tenham dificuldade para falar sobre o que estão vivendo.
Segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 17% dos estudantes brasileiros de 15 anos relataram ter sido vítimas de pelo menos uma forma de bullying algumas vezes por mês ou mais no ano passado. A média entre os países da OCDE foi de 20%.
O estudo também avaliou o cyberbullying, mostrando que 3% dos estudantes de 15 anos relataram que informações perturbadoras sobre eles foram publicadas on-line, sem seu consentimento, pelo menos algumas vezes por mês nos 12 meses anteriores à aplicação do Pisa. O percentual é o mesmo registrado, em média, nos países da OCDE.
Ampliar os caminhos de expressão e comunicação pode ajudar a criar espaços mais seguros para que adolescentes consigam falar sobre o que sentem e fortalecer sua rede de apoio.
Para a escritora, quando um adolescente não fala sobre o que sente, isso não significa necessariamente que não tenha o que dizer. Muitas vezes, ele ainda está procurando uma maneira de colocar em palavras aquilo que pensa, sente ou vive, e a escrita pode oferecer um caminho para essa elaboração.
Bruna ressalta ainda que escola e família podem estimular a escrita sem transformar toda experiência em avaliação. “Quando tudo o que o adolescente escreve precisa ser entregue, corrigido ou receber uma nota, ele pode acabar escrevendo apenas para corresponder ao que o adulto espera. A mediação da escrita pode criar uma experiência diferente: há propostas, leituras, referências e trocas, mas o texto nasce livre, sem a obrigação de chegar a uma resposta certa. Existe espaço para experimentar, mudar de ideia, reescrever e descobrir caminhos ao longo do processo”, destaca.













