Distante de seus filmes mais celebrados, “A Separação” e “O Apartamento”, que se passavam no Irã, o novo filme de Asghar Farhadi, “Parallel Tales”, exibido nesta quinta-feira em Cannes, acontece em Paris.
Isabelle Huppert aparece logo no começo do longa como Sylvie, uma escritora em vias de mudar de apartamento. Caótica, ela cria uma história baseada nos vizinhos do prédio da frente, que espiona diariamente com um binóculo. A trama, porém, é rejeitada por sua editora.
Tudo muda quando a sobrinha de Sylvie contrata Adam, um desconhecido, para ajudá-la na mudança. Aos poucos, o rapaz assume o centro da narrativa. Após roubar o manuscrito rejeitado, passa a perseguir Nita, a vizinha que inspirou a história criada por Sylvie, numa tentativa obsessiva de continuar a trama onde a escritora havia parado.
Paralelamente, Farhadi dedica parte do longa ao cotidiano dos vizinhos espionados. Nita trabalha com dois irmãos, Pierre e Theo, como sonoplasta, e namora o mais velho, Pierre.
O problema é que Adam aborda Nita e lhe entrega o livro. A partir daí, é como se a ficção influenciasse a realidade. Na história de Sylvie, Nita trai o namorado com Theo, apenas seu colega de trabalho. Mas, na realidade, quando os irmãos leem o manuscrito, passam a desconfiar um do outro e da própria Nita.
Com idas e vindas na tela entre o que é inventado e o que de fato acontece, Farhadi cria uma narrativa voyeurística, em que cada personagem passa a espionar o outro. Nesse vai e vem de núcleos, porém, sobra pouco espaço para desenvolver cada um deles —Sylvie, por exemplo, que no começo da trama parece ser uma presença fundamental, quase não aparece mais do meio para o final do longa.
“Parallel Tales”, porém, parece menos concentrado em destrinchar dilemas morais profundos a partir de um conflito tenso, algo comum nos filmes anteriores de Farhadi. Em “A Separação”, por exemplo, que venceu o Oscar de filme internacional em 2011, a vida familiar de um homem começa a ruir quando ele empurra uma mulher e ela perde seu bebê. Mais que isso, a trama expunha traços repressivos da cultura iraniana.
O diretor, que vive fora do Irã desde 2023 após declarar sofrer censura no país, parece fazer em “Parallel Tales” uma reflexão mais ampla sobre a origem da criatividade, e o impacto que uma história pode ter na vida real. Adam, por exemplo, mostra encontrar sentido na vida só após completar o rascunho de Sylvie.
Farhadi entra na competição após seu conterrâneo Jafar Panahi vencer a Palma de Ouro de 2025 com “Foi Apenas um Acidente”, rodado ilegalmente no Irã, o que levou o diretor a quase ser preso.













