Opinião: Rosalía faz da turnê ‘Lux’ um show arrebatador de poesia visual e energia

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Opinião: Rosalía faz da turnê ‘Lux’ um show arrebatador de poesia visual e energia


Em menos de meia hora, o show da turnê “Lux”, que passa pelo Brasil nesta segunda e terça, chega a um clímax. Isso talvez poderia ser um problema. Como segurar uma plateia por mais de uma hora depois do pico de adrenalina gerado pela música “Berghain”? Mas quem está no palco é Rosalía, e você sabe que a cantora espanhola ainda vai vir com algumas surpresas. Quem sabe até mais dois ou três momentos de clímax. Talvez até mesmo quatro.

E eles não vêm necessariamente com uma música animada e luzes piscando. Pode ser com ela cantando “Sauvignon Blanc” acompanhada apenas por um piano e um copo de vinho. Ou trocando confidências num confessionário.

Tive a sorte de ver “Lux” em Buenos Aires há uma semana. Sorte mesmo. Triste de saber que, por compromissos profissionais, não poderia estar no Rio de Janeiro para pegar a sua passagem por lá, me interessei quando soube que havia uma tentativa de sabotar Rosalía na Argentina, onde eu já estava trabalhando.

A torcida da artista na Copa do Mundo, em que a Espanha eliminou nossos “hermanos”, teria feito com que centenas de argentinos devolvessem seus ingressos para o show. Chequei na internet e, com efeito, havia uma nova leva de bilhetes disponíveis. Nunca fiquei tão feliz com um boicote.

Foram esses eventos improváveis que fizeram com que eu me encantasse com “Lux” desde a primeira cena, quando a cantora sai de uma caixa no palco, vestindo saia tutu e sapatilha de ponta.

Começava ali um dos melhores shows que vi na minha vida. Assim como o álbum “Lux”, essa turnê será parâmetro para quem doravante quiser pensar em como seduzir uma plateia de fãs.

Se o seu negócio é estar diante de um palco com lança-chamas, jatos de fumaça, telões de LED, câmeras de drone e bis dançante com a plateia tirando selfies no proscênio, “Lux” não é para você. Agora, se você gosta de ser surpreendido com carisma, energia e soluções visuais que sobrevivem à exposição maciça nas redes sociais, lute por um ingresso para ver os shows de Rosalía.

Por exemplo, quando a certa altura ela se transforma na Vênus de Milo —Vênus de Milo!—, embalada pelos braços de seus bailarinos com longas luvas brancas. As dela são pretas e recriam a silhueta da famosa estátua, numa imagem que você certamente já viu na internet, mas que nem por isso se torna menos sublime.

Cantando “La Perla”, Rosalía então passa da Vênus para “La Maja Vestida”, de Francisco de Goya, e eu tive a sensação de que meus pés não estavam mais tocando o chão.

Goya —Goya!— aparece também no momento “Berghain”, quando ela surge com duas penas na cabeça que nos remetem ao grande bode das pinturas negras que o artista fez nas paredes da Quinta del Sordo. Momentos geniais como esse trocam a parafernália confusa de vários shows atuais por belas poesias visuais.

Os “tableaux” mais estonteantes desabrocham com estupenda economia de elementos. E existe sempre a conexão de Rosalía com cada pessoa em sua plateia.

Ao cantar a única cover do repertório “You’re Just Too Good to Be True”, de Frankie Valli, alguns fãs literalmente sobem ao palco para um abraço. A sensação é a de que todos estão ao lado dela o tempo todo, seja na orgia dançante do final ou numa conversa íntima.

Explico. A cada noite, Rosalía chama um artista para contar um segredo num confessionário no palco. No show a que assisti foi a cantora Lali Espósito, que fez o público delirar. Palpites para quem ela chamará no Brasil?

As câmeras suspensas que refrescam sua perspectiva do palco, os sucessos antigos , como “Saoko” e “Bizcochito”, a rave tresloucada já perto do final, a queda angelical antes do bis. Nada teria o mesmo efeito se não fosse a combinação de carisma, voz, empáfia e vontade de se divertir.

“Lux” no palco é um transe do qual você não tem certeza se saiu mesmo dias depois do show. E se, passada a experiência, você vir faunos e bruxas passando como sombras pelas paredes, relaxe. Sempre existe a proteção do Cristo que Rosalía canta, aquele que chora diamantes. Os mesmos que a Lucy dos Beatles levava para passear lá pelo céu.



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