Quem assistiu Eileen Myles declamar seus poemas enquanto despejava as páginas já lidas pelo chão do palco não deixou a cena passar. O tema “Preciso Viver em Dobro” fez jus à sua participação no último dia do festival Poesia no Centro, realizado pela livraria Megafauna em São Paulo, no início da tarde deste domingo (17) .
Sua mesa estava prevista para inaugurar o evento na sexta-feira (15), mas precisou ser remarcada após um atraso no voo que vinha dos Estados Unidos. A mudança de programação não afungentou o público, que voltou a lotar o auditório principal do Teatro Cultura Artística. A conversa foi mediada pela jornalista Fernanda Mena, repórter especial da Folha, e a poeta Angélica Freitas.
Poeta e referência da literatura queer, Myles afirmou que o mundo está cada vez mais vivo e desperto, com ideias complexas sobre identidade, gênero e política. “Mas chega essa hora de tentar matar isso. [O presidente] Donald Trump sabe que está perdendo e tenta tornar tudo cada vez mais dicotômico, retroceder [direitos]”, disse.
Liberdade foi tema constante da conversa, permeada por leituras de poesias. Myles disse receber muito crédito por escrever sobre sexo, mas que não escreve “tanto assim” sobre sexo. A causa para a repercussão seria sua escolha por escrever sobre o tema de forma desglamourizada. “Somos vulgares. A poesia é uma prática disso.”
“Escrevo sobre esse tema, e só. Escrever sobre sexo parece uma coisa importante, no mundo LGBTQIA+ tem essa coisa estetizada, performática, mas acho que ninguém faz sexo assim. Sempre nos convidam [pessoas queers] a nos tornarmos símbolo de alguma coisa. Eu escrevo sobre a experiência de viver”, falou antes de ler seu famoso poema “I Always Put My Pussy” (“Eu sempre coloco minha buceta”, em português).
Há cerca de dez anos, Myles declarou preferência pelo uso de pronomes neutros em inglês “they” para se referir a si. Uma história bíblica que ouviu na igreja católica ainda na infância, sobre Jesus expulsando uma legião de demônios, foi usada para explicar como se sente.
“Legião é uma equipe. É assim que eu experimento minha identidade de gênero. Como fluida, não binária. E eu gosto de trans, de movimento. They/them, é isso que eu sou. Lésbica? Tudo bem. Queer? Aceito. Sapatão? Trans? Eu não nego, mas é bom que a minha língua [inglês] tenha isso. A língua não pode nos limitar, ela tem que nos libertar.”
Myles falou ainda sobre sua candidatura à presidência dos Estados Unidos, em 1992, concorrendo de forma independente contra George Bush, Bill Clinton e Ross Perot e brincou que a história jamais será esquecida. “Você tá sempre concorrendo. É a mesma coisa que escrever sobre sexo, não desaparece.”
Sua decisão foi motivada por um processo de politização que começou pela consciência de classe, nos anos 1980, e se desenvolveu ao logo dos anos até chegar à identidade de gênero. Na época, a maioria dos poetas se aproximava da política ou de causas sociais, como o feminismo.
Ao falar sobre as onda conservadora nos Estados Unidos e a situação dos artistas, Myles citou aqueles que também são professores universitários e precisam se calar para não perderem o emprego.
“Eu não estou numa instituição. Não tem ninguém que dependa de mim financeiramente. Eu digo o que eu quero dizer. Eu não tenho ideia do que eu estou perdendo. A gente tem que estar disposto a perder essa merda e ver como é esse mundo”, disse.
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São os encontros e os momentos de troca que lhe dão esperança. “Não tem nenhum lugar onde eu vá que a gente não fale sobre a Palestina. A força está no coletivo”, disse.
Além de suas crenças, a materialidade da vida influencia sua escrita. “Desde os 20 anos, ando com esses caderninhos no bolso de trás da calça. Isso afeta também os poemas: eu tenho muitos de três linhas, que é o tamanho do caderno”, explicou.
Os sonhos, quando anotados à quente, também povoam seus escritos. “A poesia é uma oração, uma encarnação. Eu sou muito pró-lirica porque o lírico tem uma coisa mística. A poesia é como uma lista que está se dobrando, se distorcendo, uma lista distorcida”, finalizou.
A causa palestina e a relação com a palavra foi tema também da primeira mesa deste domingo, “Ínsulas e Sertões”, em que Cida Pedrosa e Dalila Teles Veras conversaram sobre política, ritmo e questões de gênero na poesia, com mediação do editor e poeta Tarso de Melo.
Cida, que além de poeta é vereadora em Recife, afirmou que sua poesia tem função social —daí a impossibilidade de desassociar sua literatura da política. “Minha poesia tem essa pegada. Eu tô muito incomodada com esse novo fascismo, que não é novo, e o extermínio do povo palestino, das guerras na Síria, e eu não consigo ficar quieta diante dessa dor coletiva”, afirmou.
“O Brasil se encontra na maior encruzilhada desde o golpe de 1964. A classe trabalhadora está desorganizada, há falta de pensamento crítico, as big techs estão construindo pensamento para as pessoas. Então a palavra, a poesia, a arte, têm papel crítico. Havemos que nos rebelar”, afirmou.
Para Dalila, que nasceu em Portugal e morou em São Paulo até se mudar para o ABC Paulista, e para quem a concisão tem se mostrado vital na escrita, essa função social da literatura pode não estar explícita no verso. “Fazer um poema é um ato político, e eu não tenho nenhuma dúvida disso”.
A tarde contou ainda com encontros entre o poeta chileno Raúl Zurita e sua tradutora, Francesca Cricelli, e da alemã Lahya Aukongo com a portuguesa Tatiana Faia e o brasileiro Paulo Henriques Britto, com mediação de Rita Palmeira.
De acordo com a organização, a segunda edição do festival Poesia no Centro reuniu cerca de 4 mil pessoas ao longo de três dias. Foram realizadas 13 mesas no palco principal e mais de dez apresentações e atividades em outros locais.

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