Uma leitura atenta dos subitens do indicador revela que a queda de preços decorre da intervenção direta e artificial sobre os preços administrados
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A divulgação do IPCA-15 de agosto pelo IBGE trouxe uma manchete apetitosa para os discursos políticos: uma deflação de 0,40%. Contudo, para quem analisa a economia com rigor técnico, o resultado não é motivo de comemoração, mas um sinal de alerta. Uma leitura atenta dos subitens do indicador revela que a queda de preços não decorre de um equilíbrio saudável de mercado, mas da intervenção direta e artificial sobre os preços administrados.
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Os números divulgados pelo IBGE expõem essa dinâmica. O recuo expressivo do índice geral foi puxado de forma avassaladora pelos grupos fortemente impactados pela redução forçada de tarifas de energia elétrica, com o bônus de Itaipu que reduziu temporariamente a conta de energia em 6,25%, e pela contenção nos preços dos combustíveis (como a gasolina e o diesel), numa defasagem que está em 88% para o diesel e 43% para a gasolina em relação aos preços internacionais.
Enquanto esses preços controlados por canetadas empurram o IPCA-15 temporariamente para o campo negativo, a inflação de serviços, puxada no mês de julho por aumentos dos grupos de Saúde e Cuidados Pessoais (0,40%), Educação (0,46%) e Despesas Pessoais (0,66%) continua rodando em patamares desconfortáveis, sustentada pela inércia dos custos.
Trata-se de uma tática perigosa da história econômica brasileira: o represamento artificial de preços em pleno período eleitoral. O problema central da inflação reprimida é que ela não desaparece por mágica; ela apenas é represada temporariamente por uma barreira artificial e insustentável que, inevitavelmente, cederá.
O filme que assistimos hoje é uma reprise do trágico enredo vivido na reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff. Em 2014, o governo represou agressivamente os reajustes da energia elétrica e dos combustíveis para segurar o índice de inflação durante a disputa eleitoral, transmitindo a falsa sensação de controle econômico, combinado com uma redução na marra da Taxa de Juros Selic no mesmo período.
O resultado foi devastador: logo após as urnas, em 2015, o realinhamento violento dos preços represados fez a inflação disparar para além dos 10%, empurrando o Brasil para uma profunda recessão, a pior recessão já registrada na economia brasileira nos tempos recentes.

Bomba de combustível em posto – Fabio Pozzebom/Agência Brasil
O perigo de repetir esse erro é iminente. A deflação artificial de 0,40% no IPCA-15 de agosto gera uma ilusão de ótica perversa. O represamento do custo da energia e dos combustíveis hoje acumula uma fatura pesadíssima para o pós-eleição.
Quando a realidade fiscal se impuser e os reajustes tiverem de ser repassados, o consumidor enfrentará uma ressaca inflacionária, forçando o Banco Central a manter os juros em níveis restritivos. A história não perdoa a manipulação artificial de preços; o alívio provisório de hoje é a garantia do descontrole de amanhã.











