Djamila Ribeiro: Patriarcado, machismo e misoginia

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Djamila Ribeiro: Patriarcado, machismo e misoginia


Há alguns meses venho elaborando um estudo sobre o filme “Matrix“, de 1999. Inclusive, desenvolvi um curso online com apostila que tem sido transmitido em escolas públicas e privadas, associações de classe e organizações de bairro, em que me proponho a analisar o filme sob a lente feminista, oferecendo uma releitura da metáfora da pílula vermelha.

O curso, chamado “Pensamento Redpill”, mergulha na metáfora da cena protagonizada por Morpheus, líder da resistência, e Neo, o “escolhido”. Conforme já abordamos há algumas semanas nesta coluna, uma leitura deturpada dessa passagem fundamentou teorias de ódio às mulheres em grupos de adolescentes e jovens adultos nas redes sociais, a chamada “machosfera“.

Tem sido um desafio interessante analisar o filme. Como afirmo na apostila que acompanha o curso online, “Matrix” é um filme tradicionalmente observado para analisar sistemas de opressões. A partir dele, por exemplo, podemos relacioná-lo como metáfora para analisar o sistema imperialista que organiza o norte e o sul global, por exemplo.

Nesse sentido, apenas a título de rápido exemplo, podemos imaginar o mundo das máquinas como a realidade devastada das colônias, enquanto simultaneamente a realidade virtual Matrix seria a realidade plástica de países do norte, numa relação em que ambos coexistem —miséria e progresso; guerra e paz.

No curso, contudo, estou interessada em observar o filme a partir de uma proposição feminista. Isso abriu um campo muito interessante para análise e facilita, inclusive, a compreensão de conceitos amplamente difundidos, mas que ainda demandam uma abordagem didática sobre o que, de fato, significam.

A misoginia, tão alardeada atualmente, é um deles. Em linhas gerais, podemos entender de antemão que misoginia é o ódio às mulheres. Mas como ela é articulada?

A cientista política anglo-australiana Kate Manne tem uma resposta para isso. Em seu livro “Down Girl: The Logic of Misogyny”, publicado em 2017, ela distingue o machismo —ideologia que justifica a desigualdade entre homens e mulheres— da misoginia, que, por sua vez, representa o braço armado dessa ideologia.

Trazendo para o filme “Matrix”, seria entender que o patriarcado é uma estrutura histórica e concreta. É o deserto do real, o mundo das máquinas. A Matrix, em sua realidade simulada, seria em nossa associação o machismo. A partir do mundo virtual, ele organiza um conjunto de histórias, papéis, hábitos que fazem a desigualdade parecer natural.

Quem já assistiu ao filme vai compreender com maior facilidade a proposição da metáfora de que é o mundo das máquinas —o patriarcado— que organiza a Matrix —o machismo—, onde os seres humanos vivem sem se dar conta de que estão, na verdade, servindo a um sistema como fonte de energia.

E a misoginia? Bom, ela entra em prática tanto no mundo devastado, por meio das sentinelas, quanto na Matrix, pela atuação dos agentes. Ela é o poder de polícia do sistema, o braço de punição à mulher que sai do seu lugar. Tanto a sentinela, quanto os agentes têm o objetivo de destruir insurgências e manter tudo “em seu lugar”.

Logo, a misoginia não é uma mera antipatia pelas mulheres. É diferente de apenas “não gostar de mulheres”. Ela é um sistema de ataque do patriarcado desenvolvido para punir mulheres —sobretudo aquelas que não obedecem.

Quando uma mulher escreve um texto que sai do lugar esperado —em geral, um lugar de silêncio ou de restrição a temas frívolos e amenidades—, o sistema misógino ataca para corrigi-la e devolvê-la ao ser lugar. Logo, a mulher passa a receber xingamentos em redes sociais, questionamentos sobre sua aparência, deboche de sua inteligência, entre outros artifícios.

Um outro exemplo —quando uma mulher diz não a um homem numa sociedade em que se espera que ela esteja disponível e diga sim, a misoginia atua pela violência, seja para submetê-la, ou para silenciá-la, chegando no limite ao seu feminicídio.

Como sistema de punição, a misoginia ainda busca fazer a mulher “de exemplo”. Logo, misóginos que atuam vão ao extremo de ultrapassar a punição à mulher e alcançar seus filhos, sua família em geral.

Entender como funciona a misoginia é fundamental para pensar políticas e leis de proteção às mulheres. A luta pela liberdade se fortalece quando somos capazes de reconhecer o sistema em que vivemos. E a justiça só se torna possível quando decidimos não mais alimentá-lo.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *