A mestre em filosofia política e colunista da Folha Djamila Ribeiro quer desfazer duas confusões comuns: a de que o conceito de “lugar de fala” significa interdição do debate e a de que chamar de identitarismo a vivência dos outros é refresco.
Aos gritos de “Djamila, Djamila, Djamila” e palmas, ela chegou nesta sexta-feira (24) ao palco da Casa Folha, o espaço do jornal na Flip, em clima de show de diva pop, lotado, com banquetas improvisadas e um aglomerado de retardatários que via da rua, pelas frestas da janela.
A filósofa está lançando uma versão revisada e ampliada de seu livro “Lugar de Fala”, de 2017, que foi considerado pela Folha um dos melhores de não ficção do século 21. O conceito é simples e direto: cada pessoa fala e vê o mundo a partir de seu lugar nele, seja este racial, de gênero, de classe, geográfico etc.
“As pessoas que deturparam o conceito falam que o lugar de fala é impedir o outro de falar”, afirmou Djamila. “O interdito já está posto —por que, até 2014, 90% dos livros de filosofia eram escritos por brancos?”
A ideia, diz, é abrir espaços para outras vozes e desnaturalizar privilégios. “Quando você aponta e marca ‘não, mas você é um homem branco’, você tem um lugar social, eles se incomodam”, afirmou ela.
Sobre identitarismo, a filósofa respondeu às críticas de que o uso de recortes de raça e gênero seria divisivo para a sociedade brasileira. “A divisão já existe. As mulheres negras estão na base e os homens brancos, no topo. O que a gente está fazendo é apenas nomear essa divisão, porque sem nomear não é possível resolver.”
Inclusive, ponderou, não é como se “branquitude e masculinidade não fossem identidades”. “Dizem que nós não falamos sobre classe. Nós não falamos sobre classe isolada, mas com gênero e com raça.”
Djamila também contou que está trabalhando em um novo livro, desta vez sobre os red pills, que integram um movimento online que propaga ideias misóginas e machistas sobre relacionamentos e papéis de gênero. A ideia, diz, partiu da filha, que hoje tem 21 anos.
“Ela me dizia, ‘mãe, você precisa falar sobre isso’”, afirmou, explicando que foi a jovem quem a ajudou na pesquisa de um curso sobre o assunto, que ministrou em escolas e entidades públicas e de onde surgiu o livro.
“Eu entendi que era importante refletir sobre esse tema, porque a gente percebe o quanto que os pais, os responsáveis e os educadores estão perdidos com esse universo”, afirmou. “E o quanto de gente, muito ‘coach’, está capitalizando em cima do ressentimento e também da busca por identidade desses meninos.”












