A desinformação em saúde continua circulando no Brasil mesmo após o fim da pandemia de Covid-19. Embora os assuntos tenham mudado, estratégias como promessas de cura, distorção de estudos científicos e uso indevido da imagem de médicos permanecem presentes nos conteúdos compartilhados nas redes sociais.
Entre março de 2017 e junho de 2026, 87,3% das 764 alegações sobre saúde analisadas pela Agência Lupa foram classificadas como falsas, segundo o relatório Raio-X da Desinformação em Saúde — O que quase 10 anos de checagens revelam sobre as mentiras que ameaçam a saúde dos brasileiros.
O estudo foi elaborado pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da agência, com apoio da Afya, ecossistema de educação e soluções para a prática médica. A análise identificou mudanças nos temas e nos formatos da desinformação ao longo do período, com destaque para a exploração comercial de conteúdos enganosos e o uso de ferramentas de inteligência artificial para manipular vídeos e simular declarações de profissionais da saúde.
Segundo Maiquel Rosauro, pesquisador da Lupa responsável pelo levantamento, a pandemia ampliou a escala da desinformação, mas não criou todas as estratégias utilizadas atualmente.
“A mentira mudou de assunto, incorporou novas ferramentas, mas preservou mecanismos de persuasão muito parecidos”, afirma.
Da Covid-19 às promessas de cura
Para compreender as mudanças, o levantamento dividiu as checagens em quatro períodos. Entre 2017 e 2019, antes da pandemia, eram frequentes as publicações que atribuíam a alimentos, bebidas, plantas e substâncias acessíveis a capacidade de prevenir ou curar doenças graves.
Com a chegada da Covid-19, entre 2020 e 2021, houve um aumento expressivo no volume de conteúdos enganosos sobre saúde. A Lupa checou 452 conteúdos virais relacionados ao tema nesses dois anos, cerca de dez vezes mais do que nos três anos anteriores.
Entre 2022 e 2024, a desinformação passou a abordar com mais frequência supostos efeitos prejudiciais das vacinas. Parte das publicações afirmava que os imunizantes deixavam substâncias tóxicas no organismo e que seria necessário realizar uma espécie de “desintoxicação” por meio de alimentos ou produtos específicos.
Já entre 2025 e junho de 2026, ganharam espaço as promessas de tratamentos milagrosos associadas à venda de suplementos e outros produtos. Nesse período, receitas caseiras passaram a conviver com anúncios pagos, vídeos manipulados por inteligência artificial e falsas declarações atribuídas a médicos.
A mudança de foco não significou o desaparecimento da desinformação sobre vacinas. Antes da pandemia, elas estavam presentes em 9,1% das checagens de saúde. A proporção chegou a 33,2% durante a crise sanitária e a 38,9% entre 2022 e 2024. No período mais recente, caiu para 20%, mas permaneceu acima do dobro do patamar anterior à pandemia.
Das 244 alegações sobre vacinas analisadas ao longo do estudo, 212 foram classificadas como falsas, o equivalente a 86,9%.
Uso da imagem de médicos e medo para convencer
O relatório identificou dez estratégias utilizadas para tornar os conteúdos enganosos mais convincentes. Entre as mais frequentes estão a falsa autoridade médica ou científica, presente em 21,59% dos casos, o medo e a linguagem alarmista, com 17,09%, a distorção de estudos e dados, com 15,74%, e a apresentação de soluções simples para problemas complexos, com 12,59%.
Uma das práticas identificadas é o uso de declarações falsas atribuídas a profissionais reconhecidos para dar credibilidade a produtos ou tratamentos sem comprovação. O levantamento cita, por exemplo, um vídeo manipulado por inteligência artificial que utilizava a imagem do médico Drauzio Varella para promover um suplemento que supostamente seria capaz de reverter problemas de visão, como miopia, glaucoma e catarata.
Na realidade, o vídeo original havia sido publicado em uma coluna do médico no UOL, em janeiro de 2021, e abordava sintomas do diabetes. A imagem foi reaproveitada para simular uma declaração sobre um produto comercializado com promessas de benefícios à saúde.
De acordo com a apresentação do estudo, a Agência Lupa também consultou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o suplemento anunciado. A agência reguladora informou que a publicidade de suplementos alimentares não pode atribuir aos produtos propriedades de tratamento, prevenção ou cura de doenças.
O medo também aparece como recurso para atrair a atenção do público. No período entre 2025 e junho de 2026, essa estratégia foi identificada em 33,82% das alegações analisadas, segundo os dados apresentados pelo pesquisador. As publicações costumam associar vacinas, tratamentos ou produtos cotidianos a consequências graves, como câncer, infertilidade e morte.
WhatsApp concentra a circulação de conteúdos falsos
Entre as plataformas identificadas nas 498 verificações que compõem a base do estudo, o WhatsApp aparece em 70,5% dos casos, seguido pelo Facebook (25,3%), Instagram (7%), sites (5,8%) e X, antigo Twitter (3,8%).
O texto está presente em 99,4% das verificações, enquanto vídeos aparecem em 34,3% e imagens, em 26,1%. Em 74,5% dos casos, dois ou mais formatos foram combinados. A associação mais frequente foi entre texto e vídeo, registrada em 27,9% das checagens.
A combinação ajuda a explicar por que conteúdos enganosos podem parecer confiáveis mesmo quando utilizam imagens verdadeiras. Uma fotografia pode receber uma legenda falsa, um vídeo autêntico pode ser apresentado como se mostrasse outro acontecimento e um áudio pode ser atribuído indevidamente a um médico.
Nesses casos, o texto que acompanha o material, seja em títulos, legendas ou mensagens encaminhadas, direciona a interpretação do público.
O WhatsApp também é utilizado como parte de estratégias comerciais. Segundo o levantamento, das 18 verificações relacionadas à exploração comercial da desinformação em saúde, 17 envolviam a venda de produtos ou serviços. Quatorze desses casos foram registrados depois de 2021.
O diabetes foi a doença mais explorada nesse recorte, aparecendo em sete das 18 verificações. Entre as falsas promessas identificadas estavam produtos que alegavam controlar ou reverter a doença, dispensar medicamentos e eliminar restrições alimentares.
O relatório também identificou cinco casos comerciais que sugeriam substituir tratamentos ou procedimentos comprovados, incluindo abandonar medicamentos, dispensar insulina ou evitar cirurgias. Esse tipo de conteúdo pode representar um risco adicional ao incentivar pessoas a interromper tratamentos prescritos e substituí-los por produtos sem eficácia comprovada.
Como reconhecer conteúdos enganosos
O relatório destaca a importância de observar a origem das informações e desconfiar de publicações que prometem resultados extraordinários, especialmente quando associam uma solução simples à cura de doenças complexas.
Também é importante verificar se a declaração atribuída a um médico foi publicada em seus canais oficiais ou em veículos confiáveis. Erros de grafia, links suspeitos e páginas que imitam a identidade visual de portais jornalísticos podem ser sinais de alerta, embora não sejam suficientes, isoladamente, para determinar se uma informação é falsa.
Outro cuidado é não compartilhar conteúdos antes de verificar sua procedência. Imagens, áudios e vídeos podem ter sido retirados de contexto, editados ou manipulados com inteligência artificial, inclusive para simular declarações de pessoas públicas.
Na avaliação apresentada pelo estudo, o enfrentamento da desinformação exige monitoramento contínuo, respostas nos mesmos canais em que os boatos circulam e ações de educação midiática. Para os profissionais de saúde, isso inclui perguntar aos pacientes de onde vêm as informações que consomem, antecipar dúvidas recorrentes e orientar que nenhum tratamento seja interrompido por conta própria em razão de conteúdos vistos na internet.
A pesquisa também aponta a necessidade de denunciar o uso indevido da imagem e da voz de profissionais em publicações enganosas. A medida é especialmente relevante diante da circulação de vídeos manipulados e de anúncios que utilizam a credibilidade de médicos para vender produtos.
Com a diversificação dos temas e das ferramentas utilizadas, o levantamento indica que a desinformação em saúde permanece como um desafio mesmo depois da emergência sanitária da Covid-19. Além de confundir o público, esses conteúdos podem influenciar decisões sobre prevenção, diagnóstico e tratamento, sobretudo quando são utilizados para estimular a compra de produtos ou o abandono de cuidados médicos comprovados.














