Opinião – Socorro Acioli: Meu encontro com Paulo Coelho e um milagre do Menino Jesus de Praga

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Opinião – Socorro Acioli: Meu encontro com Paulo Coelho e um milagre do Menino Jesus de Praga


Minha avó dizia que eu seria freira e certamente canonizada um dia.

Sua convicção vinha do fato de que escapei da morte duas vezes antes de completar um ano de vida. E também da minha mania de pegar uma imagem do Menino Jesus de Praga e encostar na testa de quem dissesse que estava com dor de cabeça, desde que aprendi a andar. Segundo minha avó, a dor passava na hora.

Perdi o dom. Infelizmente, hoje não posso viver sem Neosaldina na bolsa. A beatificação também não será possível, mas continuo gostando muito do Menino Jesus de Praga.

Por isso fui com minha filha, então com quatro anos, de Munique a Praga, com o dinheiro contado. Eu só queria assistir a uma missa no dia 9 de outubro de 2007, aniversário da minha avó.

Chegamos na hora da missa, rezada em espanhol. Achei por bem comungar. Beatriz tinha quatro anos e eu expliquei que iria até o padre e voltaria logo. Quando eu recebi a hóstia, ouvi uma vozinha dizendo “gracias”. Era ela, que me seguiu.

A auxiliar de missa achou por bem entregar o corpo de Cristo a uma criança daquele tamanho. Se eu deixasse a menina colocar na boca, era capaz de a alma da vovó baixar em alguém ali mesmo, para brigar comigo.

“Eu quero comer o biscoitinho”, ela dizia alto, enquanto eu tentava explicar que era Jesus ali. Com muito custo, ela me entregou a hóstia em troca de uma promessa de chocolates.

Mais tarde, quando passei na lojinha, o padre me chamou em português. Era indiano, de Goa, disse que ouviu minha explicação e achou muito lindo. Juro que não lembro o que eu disse, era puro desespero.

Ele começou a nos benzer com água benta e muito entusiasmo. Beatriz perguntou por que ele estava dando banho na gente. Depois, o padre me entregou um pacote com cem orações para o Menino Jesus de Praga. Fomos embora de volta para Alemanha, devidamente banhadas de água santa, com um pouco menos de pecados e escassas moedinhas que troquei por chocolates na estação.

Eu estava em Munique com uma bolsa de pesquisa, junto com mais três colegas: uma japonesa, uma coreana e um polonês. No dia em que voltei de Praga, descobrimos que o Paulo Coelho estava na cidade.

A japonesa chorava, o polonês gritava, a coreana tremia e suplicaram para que eu fosse com eles para falar em brasileiro com o ídolo.

Em meia hora eu estava diante de Paulo Coelho, mas sem dinheiro para comprar o livro. Para não passar vergonha, estendi a mão e entreguei um dos santinhos do Menino Jesus de Praga, de quem ele é devoto fervoroso.

Eu não sabia. Fiquei sabendo ao ler na véspera uma reportagem emoldurada na igreja. Uma coincidência inacreditável. Acho que o Mago tinha pedido algum sinal ao destino. Quando entreguei a oração, seus olhos marejaram e ele me agradeceu quatro vezes, com gratidão sincera.

Isso foi em 2007. Quase 20 anos depois, estou em Barcelona, no escritório da Mônica Antunes, a mulher incrível que fez o mundo inteiro conhecer os livros do brasileiro mais lido do planeta. Ela é chamada de Bruxa de Barcelona, por ter aberto um caminho tão iluminado quanto improvável. Pois estou diante dela, milagre do Menino Jesus de Praga.

Não virei santa, estou cheia de pecados, mas desta vez comi pizza com uma bruxa que me confirmou: é o invisível que comanda o mundo.


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