Para J.R.R. Tolkien, o inferno era um engarrafamento.
No mais recente livro póstumo do autor de “O Senhor dos Anéis”, uma sátira surrealista com páginas inteiras em latim e jogos de linguagem que parecem ter saído de um romance de Umberto Eco, monstros de quatro rodas escravizam e destroem uma antiga cidade habitada por sábios.
A designação latina desse lugar está por trás do título do livro, “Os Fragmentos de Bovadium”. O termo, que significa “vau para bois” (ou seja, a parte rasa do rio que o gado usa para atravessar até a outra margem), nada mais é que uma tradução do nome da cidade britânica de Oxford para a língua da Roma Antiga.
Leitores de outras obras de Tolkien certamente reconhecerão esse jogo de espelhos tradutório como uma das marcas registradas do autor —afinal, até obras voltadas ao público infantil, como “O Hobbit”, eram apresentadas pelo filólogo britânico como traduções de manuscritos antigos que ele teria desenterrado.
Na superfície, “Os Fragmentos de Bovadium” pode ser lido apenas como mais uma brincadeira desse tipo, uma crítica bem-humorada, e talvez exageradamente passadista, à cultura do automóvel que tomou de assalto até a pacata cidade acadêmica de Oxford nos anos 1950 e 1960.
Um olhar mais cuidadoso, porém, mostra que essa narrativa esquisitíssima e deliberadamente fragmentada (o título, nesse caso, não é só força de expressão) reitera as principais obsessões filosóficas e teológicas que estão por trás da ficção tolkieniana.
A exemplo das dezenas de outros livros publicados após a morte do autor com base em seus manuscritos, “Os Fragmentos de Bovadium” foi editado por seu filho caçula e testamenteiro literário, Christopher Tolkien, morto em 2020.
Mas, enquanto a grande maioria das obras póstumas estava inacabada quando o autor morreu, o novo livro quase chegou a ser submetido por Tolkien a revistas literárias britânicas. Ao ser desaconselhado a fazer isso por um amigo, que achou o texto muito hermético pelo uso do latim, ele desistiu da publicação.
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Não é caso de exagerar essa barreira, porém, até porque as brincadeiras de Tolkien com o idioma (um dos favoritos do autor, especialista em línguas antigas) estão todas acompanhadas da versão traduzida. E o latim, além disso, serve a um propósito importante: a rigor, o livro é uma narrativa pós-apocalíptica.
Tolkien imagina o seguinte cenário: os arqueólogos de um futuro distante encontram as ruínas de “Bovadium”, achando que as imponentes construções da Universidade de Oxford tinham sido fortalezas de um reino perdido.
Desenterram naquelas “fortalezas” restos de inscrições em duas línguas, que designam como “idioma A” (fica subentendido que se trata do latim) e “idioma B” (o inglês).
Ao estudar os manuscritos, os arqueólogos reconstroem a tragédia de Bovadium. Os textos contam que um “Daemon” —palavra greco-latina que significava originalmente “espírito” ou divindade menor e deu origem ao nosso termo “demônio”— “em suas oficinas secretas, concebeu certas máquinas abomináveis, às quais deu o nome de Motores”.
“Muitos dos citadinos abrigavam os monstros, alimentando-os com os onerosos óleos e essências que exigiam, e erguendo para eles casas nos seus jardins”, prossegue o texto.
“Pois o ‘Daemon’ prometeu a cada um, em particular, que qualquer ‘Motor’ que fosse tratado dessa maneira se tornaria seu serviçal e o levaria com grande velocidade aonde quer que desejasse; e, assim, ultrapassaria todos os outros e, ademais, estaria para sempre livre do labor que é caminhar.”
A partir desse começo nada auspicioso, a narrativa se encaminha para uma conflagração literalmente infernal. A grande ironia é que, enquanto o amigo de Tolkien recomendou que ele desistisse da publicação porque lhe parecia inverossímil uma condenação tão feroz da vida motorizada, está justamente nesse ponto uma das forças proféticas da ficção tolkieniana.
O “Daemon” de Bovadium ecoa os outros vilões sobrenaturais da obra do autor, como Sauron em “O Senhor dos Anéis” e Morgoth em “O Silmarillion”. A promessa de todos eles é uma só: controle. Controle sobre a natureza física do mundo e, em última instância, sobre outras vontades livres —uma possibilidade que Tolkien encarava como ilusória e autodestrutiva.
Era nessa visão que residia a aparente birra do autor contra a aceleração impensada do progresso tecnológico. E, se o apocalipse de Bovadium começa com o motor de combustão interna, ele termina com uma alusão ao que hoje chamaríamos de transumanismo —o projeto de transcender os limites biológicos e cognitivos humanos. Na era da inteligência artificial e da biotecnologia, é um alerta valioso.














