Com “spoilers” ou sem? O que você acha que prefere? A gente nunca sabe até o “spoiler” ser dado. Tem uns imperdoáveis, como contar que o personagem do Bruce Willis está morto desde o começo do filme “O Sexto Sentido”. Estraga toda a experiência. Mas o que dizer sobre o clássico “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, cujo título entrega o final da trama? Ou “Titanic”, um dos longas de maior sucesso da história do cinema?
Mas, se você está comigo até aqui, quase consigo apostar que não é pelo frisson de conhecer as novas piadas de Louis C.K., mas para saber o que ele aprontou. Então vamos logo tirar esse elefante do meio da sala. Em abril de 2017, quase dez anos atrás, a Netflix lançou o especial “Louis C.K., 2017” e anunciou que aquela seria a estreia do comediante no canal, que havia assinado um contrato para apresentar mais duas atrações.
Foi um bom ano para ser Louis C.K., aquele 2017. Ele já tinha seis outros especiais lançados pela HBO, todos muito elogiados; havia criado, protagonizado e dirigido a ótima série “Louie”, que teve cinco temporadas e ganhou várias estatuetas do Emmy entre 2010 e 2015; já tinha escrito roteiros de longas, fez parte do grupo de roteiristas do “Saturday Night Live” e, dez anos antes, já tinha saído dos bastidores para a frente do palco. Estava rico e famoso.
Em novembro do mesmo ano, no entanto, o The New York Times publicou uma longa reportagem investigativa sobre como cinco mulheres haviam relatado que o comediante havia se masturbado na frente delas sem o consentimento adequado, ou enquanto falava com elas pelo telefone. Tudo aconteceu entre os anos 1990 e o começo deste século.
No dia seguinte, ele publicou uma declaração assumindo a má conduta e dizendo que achava que estava tudo bem na época, já que sempre pedia permissão às mulheres antes. Mas, como era uma figura de poder e as mulheres, iniciantes na carreira —quatro delas eram jovens comediantes—, percebia naquele momento como o que fazia estava errado.
Apesar de não sofrer nenhuma consequência jurídica, já que nenhuma das mulheres prestou queixa, sua carreira desmoronou. A Netflix cancelou os outros dois especiais, a série “Louie”, que tinha chance de continuar existindo, também foi pro brejo. Ele perdeu o trabalho de dublador da animação “Pets: A Vida Secreta dos Bichos 2” e o longa-metragem “I Love You, Daddy”, que ele havia escrito, protagonizado e dirigido, perdeu qualquer chance de distribuição.
Ele sumiu por um longo tempo, mas, pouco a pouco, foi retomando sua carreira, começando como começam quase todos os comediantes de stand-up nos pequenos clubes de comédia. Em 2020, lançou de forma independente o especial “Sincerely Louis C.K”, em que falava abertamente sobre o tema, com o humor autodepreciativo e, às vezes, até violento que são suas marcas registradas. E agora, quase dez anos depois do escândalo, ele está de volta à Netflix com “Ridiculous”.
Com uma hora de duração, “Ridiculous” mostra um Louis C.K. mais velho, tem 58 anos hoje, provavelmente deprimido, mas ainda muito engraçado, e sem nada mais a perder. Claro, ainda poderia perder este contrato atual, mas não aconteceu —o programa está no ar. E, num email para os assinantes da sua newsletter, ele conta que o especial da Netflix foi criado durante uma turnê feita mundo afora, que durou três meses, em 2024.
Ou seja, as piadas já estavam criadas e se pagando na bilheteria; a Netflix só gostou do que viu, gravou uma apresentação e botou hoje no ar, sem muito alarde. E ninguém é obrigado a assistir. Quer dizer, ninguém menos eu, que fui pautada para esta resenha. O que eu posso dizer? Escolha bem a sua profissão e, de vez em quando, o trabalho nem vai parecer trabalho.
Mas não mate o mensageiro; estou aqui cumprindo ordens. Ou mate. Afinal, o mundo anda tão esquisito ultimamente que o amor e o ódio parecem ter dado as mãos no mundo digital. Então, se for me xingar, por favor, faça isso online, onde qualquer comentário, para o bem ou para o mal, tem o mesmo nome: engajamento.
Sobre o especial em si: é bem engraçado, especialmente se o seu dia está dando muito errado. Louis C.K. tem um talento único para olhar as coisas do pior ângulo possível e ainda fazer graça com isso. Uma graça que às vezes dá até vergonha de rir junto, mas, no final das contas, não machuca ninguém, já que o alvo principal dele continua o mesmo de sempre: ele mesmo.
Eu guardaria esta carta na manga e não assistiria ainda. Espera o Brasil perder um jogo, se é que isso vai acontecer nesta Copa —não estou urucando ninguém, mas o time da Noruega e aquele gigante albino dão medo. Ou você receber uma péssima notícia, daquelas que azedam o humor e os planos, e que faz parecer que o ódio não vai passar nunca.
Por sorte do Louis C.K., meu dia começou assim, com um soco no estômago, metaforicamente falando. Mal sabia eu que o consolo estaria no serviço.












