Poucas coisas assombram mais o Brasil do que o espectro da propriedade. A terra, o sobrenome, a riqueza acumulada: aquilo que garante continuidade para alguns costuma produzir violência e exclusão para outros.
Em “O Dono e o Mal”, Bruno Ribeiro transforma esse discernimento em um romance de fôlego raro na literatura brasileira contemporânea.
Ao acompanhar a trajetória da família Santos Assumpção ao longo de décadas, o autor constrói uma saga familiar, um romance histórico e uma narrativa de horror que têm como objeto comum a formação do Brasil.
A trama parte de um gesto simples de transmissão patrimonial. Após a gravidez acidental da adolescente Valéria, filha mais nova da família, de um garoto rico, os poderosos Lucena Neumann oferecem um antigo boteco como forma de resolver o escândalo. A propriedade se transforma no restaurante Recanto Feliz.
Mas o que parece uma negociação privada logo revela algo maior: em “O Dono e o Mal”, quase toda herança carrega uma história de violência.
Batista, o patriarca dos Santos Assumpção, participa da construção da Transamazônica durante a ditadura, passa pelo presídio de Ilha Grande e é recrutado para atuar como matador a serviço do regime militar. Soledade, sua companheira, é entregue para trabalhar na casa de uma família rica e engravida do herdeiro. O filho dessa relação, Genival, cresce marcado pela exclusão.
Já Graciliano, filho de Batista, reproduz a violência do pai ao se tornar um poderoso traficante no Rio de Janeiro. Em todos os casos, o que está em jogo não é apenas o destino individual dos personagens, mas aquilo que recebem e transmitem, as forças históricas que muito os superam.
Ribeiro parece interessado em investigar como a violência atravessa gerações, muda de aparência e encontra novos hospedeiros, numa lógica de posse, mas também de possessão demoníaca.
O mal não aparece só como resultado de escolhas individuais, mas circula, é transmitido por cadeias muitas vezes imperceptíveis. Os ricos convertem violência em patrimônio; os pobres herdam apenas seus destroços.
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Talvez por isso o romance abandone os limites do realismo convencional. Fantasmas, demônios, maldições e possessões povoam a narrativa. É nessa chave que ganha força a figura do Inglês, presença demoníaca que assombra gerações da família.
Como o diabo de “O Mestre e a Margarida”, de Mikhail Bulgakov, o Inglês percorre o romance como uma força persistente, capaz de reorganizar destinos individuais e coletivos muito depois de sua origem histórica.
O sobrenatural, assim, não funciona como ornamento fantástico, mas como instrumento de leitura da história brasileira para torná-la inteligível. A violência retratada por Ribeiro é tão profunda que o horror surge como uma linguagem capaz de representar aquilo que o realismo sozinho talvez não consiga explicar, desnaturalizando aquilo que tomamos como cotidiano.
Como narrar a permanência do colonialismo, do racismo e da desigualdade ao longo dos séculos? O romance responde transformando essas forças em assombrações.
Nesse aspecto, “O Dono e o Mal” se aproxima de uma importante linhagem da literatura latino-americana de hoje, de autores como Mariana Enriquez, para quem os fantasmas emergem de violências históricas que insistem em retornar. Mas o livro também dialoga com uma tradição brasileira muito diferente: a dos grandes narradores interessados em compreender o país como totalidade.
Há ecos de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Erico Verissimo em sua ambição de transformar famílias, paisagens e conflitos locais em matéria para pensar a formação nacional. Ribeiro sabe herdar a ambição totalizante do romance brasileiro de 1930, com uma imaginação sombria do horror contemporâneo.
O resultado é um romance de arestas, por vezes excessivo e frequentemente febril. Como os grandes livros que tentam abraçar um mundo inteiro, corre o risco permanente do desmoronamento. Ainda assim, sustenta uma das empreitadas mais ambiciosas da ficção brasileira recente: transformar a história do Brasil numa história de horror.














