Um dos principais méritos do filme está na renúncia em transformar o criminoso em protagonista, colocando as mulheres no centro da narrativa
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O diretor Marcos Jorge volta a explorar histórias conhecidas sob novas perspectivas em “Doutor Monstro”, longa exibido pela primeira vez nesta segunda-feira (1º) no Cine PE, no Teatro do Parque.
Com estreia prevista para 10 de setembro nos cinemas, o filme utiliza um dos crimes mais chocantes da história recente do país para discutir problemas estruturais da sociedade brasileira, como a misoginia, a espetacularização midiática da violência e os mecanismos usados para descredibilizar vítimas.
Protagonizado por Taís Araújo, que vive a promotora de Justiça Claudia Ferreira, o longa se distancia da fórmula tradicional do true crime ao colocar no centro da narrativa não o assassino, mas a promotora responsável por levar o caso a julgamento.
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A escolha desloca o foco da curiosidade em torno do criminoso para as disputas de poder, narrativa e memória que cercam crimes de violência contra a mulher.
Em entrevista ao JC, a atriz afirmou: “Mostra algumas mazelas do Brasil: a questão da justiça que é morosa, muitas vezes a espetacularização da mídia no que diz respeito a alguns absurdos em que o criminoso vira uma grande estrela e coisas que a gente precisa tomar muito cuidado”.
Tribunal como palco de disputa de narrativas

Projeto teria foco na defesa de Farah Jorge Farah – Divulgação
Na trama, a promotora Claudia Ferreira, interpretada por Taís, conduz a acusação contra o cirurgião plástico Farah Jorge Farah, vivido por Marat Descartes. Do outro lado, o advogado Pontes, interpretado por Guilherme Weber, busca desconstruir a versão apresentada pela acusação e inocentar o réu.
O filme transforma o tribunal em um espaço de disputa entre as narrativas. Mais do que determinar a culpa do acusado, o julgamento revela como vítimas podem ser colocadas sob suspeita e como preconceitos de gênero influenciam a percepção pública sobre casos de violência contra a mulher.
Ao longo da trama, Marcos Jorge coloca luz às estratégias de culpabilização feminina, em diálogo com a atualidade do tema A obra também questiona o papel da cobertura midiática na construção de versões sobre crimes de grande repercussão. A moral serve de base para a construção narrativa.
A narrativa adota um ritmo mais contido em seus primeiros minutos, dedicados à contextualização dos personagens e dos acontecimentos que antecedem o crime.
Depois, o ritmo fica mais intenso, com alegações no tribunal e um tom típico hollywoodiano, com a marca brasileira. Entre acusações, depoimentos e provas, o roteiro aponta para as alegações que esmiuça o Brasil em camadas mais profundas e banalizadas: o desejo de justiça pelas próprias mãos, o machismo e a vitimização.
Mulheres no centro da narrativa

Filme “Doutor Monstro” estará na abertura do festival – Divulgação
Um dos principais méritos do filme está na renúncia em transformar o criminoso em protagonista. Enquanto muitas produções do gênero true crime concentram sua atenção na figura do assassino, a obra escolhe destacar as mulheres impactadas pela violência e os desafios enfrentados para responsabilizar os autores do crime.
Além da atuação segura de Taís Araújo e da intensa composição de Marat Descartes, Carolina Kasting protagoniza um dos momentos mais marcantes do longa.
Em uma breve participação como ex-paciente de Farah Jorge Farah, a atriz conduz uma cena emocionalmente complexa durante o julgamento, levando o público a formular conclusões precipitadas para, em seguida, questioná-las.
A sequência sintetiza uma das principais propostas do filme: provocar reflexões sobre julgamentos e sobre a forma como a sociedade costuma construir imagens de vítimas e agressores.
Além do true crime
Ao adotar a perspectiva da acusação, Marcos Jorge encontra uma abordagem singular para um gênero cada vez mais frequente no audiovisual brasileiro. Sem recorrer ao suspense como principal motor narrativo, “Doutor Monstro” constrói uma reflexão sobre violência de gênero, mídia e sistema de Justiça, que dialoga diretamente com o presente.
Mais do que um filme sobre um crime brutal, a obra se transforma em um retrato das estruturas que permitem que violências sejam relativizadas, esquecidas ou justificadas.
Caso que inspirou “Doutor Monstro”
Em 2003, o cirurgião plástico Farah Jorge Farah assassinou sua ex-paciente Maria do Carmo Alves em um crime que chocou o país. Além de esquartejar a vítima, ele removeu cirurgicamente a pele do rosto, das mãos e dos pés para dificultar sua identificação. O médico confessou o assassinato à polícia.
O caso ganhou ampla repercussão nacional e passou a simbolizar debates sobre violência contra a mulher, atuação da imprensa e morosidade da Justiça brasileira.
O processo foi marcado por sucessivos adiamentos e reviravoltas judiciais. No primeiro julgamento, realizado em 2008, Farah foi condenado a 12 anos de prisão. A decisão, porém, foi anulada em 2013.
No ano seguinte, um novo júri condenou o médico a 16 anos de prisão em regime inicialmente fechado. Durante o processo, a defesa sustentou a tese de legítima defesa, enquanto a acusação argumentava que Maria do Carmo estava desacordada quando foi assassinada.

Em 2003, o cirurgião plástico Farah Jorge Farah assassinou sua ex-paciente Maria do Carmo Alves em um crime que chocou o país – Reprodução/SBT News
Segundo a promotoria, Farah teria atraído a paciente ao consultório sob o pretexto de realizar uma lipoaspiração para sedá-la antes do crime.
À época, parte da cobertura jornalística noticiou que Farah Jorge Farah e Maria do Carmo Alves mantinham um relacionamento amoroso. A informação nunca foi comprovada pela polícia e se tornou um dos pontos de discussão sobre a forma como as vítimas de feminicídio são retratadas publicamente. A questão dialoga diretamente com uma das críticas centrais apresentadas pelo longa de Marcos Jorge.
Desfecho
Em 2017, Farah Jorge Farah cometeu suicídio em seu apartamento enquanto policiais civis se preparavam para cumprir um mandado de prisão. Segundo os agentes, o ex-médico foi encontrado com silicone no peito e nas nádegas, com roupas femininas e ouvindo músicas fúnebres.
No dia anterior, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) havia determinado o cumprimento da pena de 14 anos e oito meses de prisão, encerrando uma longa disputa judicial iniciada mais de uma década antes.














